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  • 22 de Outubro, 2010
  • Por Carlos Esperança
  • Literatura

No início da década de sessenta, ali na Covilhã (Crónica)

Não sei como era a Covilhã em 1186, elevada a vila por foral de D. Sancho I, nem em 1763 quando o Marquês de Pombal ali criou a Real Fábrica de Panos que havia de lhe traçar o perfil industrial e torná-la um local de misérias e grandezas conforme as crises cíclicas a que ficou condenada. Das grandezas fruíam os industriais que, duas gerações depois, abriam falência enquanto outros surgiam para recomeçar o ciclo. Das misérias foram vítimas gerações de assalariados que ora fugiam das aldeias em busca do magro salário na indústria, ora regressavam à fome e às courelas em Boidobra, Peraboa, Ferro, Verdelhos, Orjais, Canhoso, Cortes, Teixoso ou Casegas.

Era este revezamento entre o campo e a fábrica que não deixava enraizar a consciência proletária mas atraía para a política alguns rurais feitos operários. Descrito por Ferreira de Castro, em «A lã e a Neve», não creio que Horácio, pastor, fosse o paradigma dessa alternância que dos rurais fazia operários têxteis e os reenviava para as aldeias e para a enxada quando a crise de novo se instalava. Não era o amor à terra que os movia, eram as fábricas que os expulsavam.

As pessoas fazem as cidades mas estas são as suas circunstâncias, que as moldam e lhes imprimem o carácter, os hábitos e o gosto. Na cidade não havia a courela que dava aos operários a ilusão de terem garantidos os alimentos e a casa de telha vã que os abrigava da chuva e da neve, e a vida na cidade é sempre cara para quem não lhe pode fazer face. Por isso caminhavam horas antes de iniciarem longos turnos em alguma das numerosas fábricas, que seguiam o leito das ribeiras Carpinteira e Degoldra, que enchiam de ruído a cidade que sobe pela encosta no sueste da serra da Estrela.

Em 1961arrastava-se no Tribunal da comarca a falência da Fábrica Alçada, outras agonizavam, e preparava-se para laborar a Nova Penteação que, com a evolução dos teares mecânicos e a consequente redução de mão de obra, havia de durar décadas até seguir o destino a que, também ela, não seria poupada.

A Covilhã reciclava o trapo e tecia com fios de lã o estambre, com variados padrões e cores, saído da arte e engenho dos debuxadores. O delegado do Instituto Nacional de Trabalho nunca negava aos patrões o aumento das horas de laboração, se as encomendas cresciam, nem as autorizações para despedir, quando diminuíam, nem as prendas que, em qualquer caso, sempre recebia.

O Têxtil e o Avante acusavam o delegado do ministério das Corporações dos subornos e acicatavam a revolta, a polícia espiava, o tenente Gaspar assustava a pequena burguesia na esquadra da PSP, a PIDE prendia os comunistas, mas era no interior das fábricas que a revolta crescia, abafada pelo ruído dos teares e pelo medo da polícia e do desemprego.

Foi nos dois anos lectivos, de 1961/63, que me fiz assinante do Jornal do Fundão, onde a coragem de António Paulouro fez a pedagogia democrática que manteve a esperança num 25 de Abril que ainda vinha longe.

Nas fábricas, o PCP lutava para se impor e nos cafés conspirava a burguesia mais culta.
No Montalto, onde pontificava o distinto advogado Guilherme Raposo de Moura, fiz o meu tirocínio político com o João Heleno, ecónomo do sanatório, o médico Sá Lima, o bibliotecário da Gulbenkian, Abel Leite da Silva, o Ernesto da Farmácia, o professor primário Barata, futuro deputado constituinte, e o Ribeiro dos Tabacos a quem a PIDE mandou retirar a representação das cervejas, primeiro, e a dos tabacos, depois, sem nunca se render. Nos anos que vieram chegaram novos democratas que o tenente Gaspar se encarregou de intimidar, os bufos de denunciar e a PIDE de prender.

Um pouco abaixo do Largo do Pelourinho, no Café Solneve, o Jerónimo dos Santos, o Patacho e o Teixeirinha, que a democracia viria a fazer presidente da Câmara, eram o núcleo de outro grupo anti-salazarista ligado ao primeiro por grande cordialidade a que não eram alheias as qualidades de Raposo de Moura, uma referência na cultura, no foro e na política, personalidade de cativante simpatia e enorme prestígio.

A escola técnica, o liceu até ao 5.º ano e o colégio Moderno, até ao 7.º, dirigido por um grande democrata, Castro Martins, constituíam a escassa oferta de ensino que contava ainda com 45 professores do ensino primário.

Na Covilhã, nos dois anos que ali vivi antes de rumar ao distrito de Lisboa, ameaçado de demissão pelo Director Escolar, Silva Mendes, se não abandonasse a cidade ou as companhias, com dois polícias a seguirem-me e o padre Morgadinho a denunciar-me à PIDE, apercebi-me dos mecanismos de repressão da ditadura, da cumplicidade do clero com o fascismo e da dureza da vida dos operários.

Da Covilhã, trouxe a enorme carga afectiva que dos 18 aos 20 anos moldaram o homem e o cidadão que jamais deixei de ser. Saí da Covilhã compelido pelos biltres da ditadura mas a Covilhã nunca mais saiu de mim. Ainda hoje, quase meio século volvido, recordo numerosos amigos, muitos já falecidos, mestres da escola técnica, docentes de todos as instituições de ensino, taxistas, prostitutas, barbeiros, engraxadores, o Artur Campos, proprietário do Montalto que mandava ao primeiro andar um empregado avisar-nos da presença da polícia, e, sobretudo, os meus alunos que apareciam na escola dos Penedos Altos, com sono e fome, vindos das Lameirinhas, Borralheira e Lameirão.

Recordo o Leal, o ardina que uma noite me guardou, sob a camisola, o jornal habitual que, à largura de toda a primeira página, anunciava em letras garrafais um título em caixa alta: «Ontem reuniu a Assembleia Nacional para apreciar as contas gerais do Estado relativas ao ano findo». A ausência de um «t», nas contas, pôs o país a rir e a polícia a confiscar o diário mas o Leal, fiel e cúmplice, guardou um exemplar para o cliente de todos os dias.

A Covilhã, urbe que 350 metros de altitude separam da base até ao topo, a caminho das Penhas da Saúde, ansiosa por chegar à Torre, a serpentear a Serra da Estrela, tem velhas tradições democráticas. Foi um alfobre de gente que aprendeu na ditadura os caminhos da resistência, é hoje uma cidade de 140 anos na vanguarda do progresso a desafiar a interioridade e a vencer a batalha do desenvolvimento.

13 thoughts on “No início da década de sessenta, ali na Covilhã (Crónica)”
  • Anónimo

    Magnifica crónica.
    Por momentos senti-me transportado a uma época e a uma terra que mal conheço.
    Parabéns.

  • antoniofernando

    Carlos Esperança:

    Tenho fortes ligações à Covilhã. Provavelmente já me cruzei consigo no Montalto. A vida tem destas enormes coincidências. Gostei imenso deste seu texto.Parabéns…

    • Carlos Esperança

      António Fernandes:

      Quem me dera que nos tivéssemos cruzado ! Era sinal de que eu era mais novo. Fui professor de 1961/63, detido várias vezes, quarto guardado e obrigado a mudar de distrito, com uma sindicância por ser considerado desafecto ao regime.

      Esta crónica foi-me solicitada pelo Jornal do Fundão, de que sou colaborador, para uma revista que acompanhou o número de ontem e foi uma homenagem aos 140 anos da elevação da Covilhã a cidade.

      Não estando relacionada com o ateísmo, já não é a primeira vez que aqui publico textos pelo interesse etnográfico ou literário que imodestamente lhes atribuo.

      Obrigado pelo comentário.

      • antoniofernando

        Carlos Esperança:

        Fui muito namoradeiro na Covilhã e mais não posso dizer, se não tinha que falar aqui em nomes que não desejo citar… 🙂
        Esse seu texto está extraordinário. Lamento que tenha passado pelas amarguras pidescas que enunciou. Por isso a Democracia e a Liberdade de Pensamento são bens tão preciosos…

      • antoniofernando

        Carlos Esperança:

        Fui muito namoradeiro na Covilhã e mais não posso dizer, se não tinha que falar aqui em nomes que não desejo citar… 🙂
        Esse seu texto está extraordinário. Lamento que tenha passado pelas amarguras pidescas que enunciou. Por isso a Democracia e a Liberdade de Pensamento são bens tão preciosos…

      • antoniofernando

        Carlos Esperança:

        Fui muito namoradeiro na Covilhã e mais não posso dizer, se não tinha que falar aqui em nomes que não desejo citar… 🙂
        Esse seu texto está extraordinário. Lamento que tenha passado pelas amarguras pidescas que enunciou. Por isso a Democracia e a Liberdade de Pensamento são bens tão preciosos…

  • Abraão

    A realidade de uma cidade não diferente de muitas outras naqueles tempos. Obrigado por nos contar esta passagem da sua vida.
    Que a sua memória continue viva para nos trazer mais textos como este que, para os mais velhos serve de lembrança e para os mais novos serve de lição.
    Obrigado também pela sua coragem contra a ditadura salazarista.

    • Carlos Esperança

      Caro Abraão:

      Não lhe chame coragem. Tinha muito medo. Nem calcula!

      Obrigado.

  • mário

    É pena que muita gente se lembre da Covilhã por associá-la ao local de nascimento de Salazar e esquecem-se de todo o povo que sempre lutou contra a ditadura.

    • Carlos Esperança

      Mário:

      Salazar não nasceu na Covilhã mas, sem culpa para a terra, em Santa Comba Dão.

      • mário

        Tem toda a razão, peço desculpa pelo engano. Não sei porquê mas sempre confundi essas duas terras :S

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