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Exorcismo e superstição

As “paixões” da culpabilidade podem ser causa de desequilíbrios psicossomáticos, e portanto factores de doença. «O logos do Pai, – escreve Clemente de Alexandria- , é o único médico que convém à fraqueza humana. Ele conserva a saúde, ele descobre os males, ele aponta as causas das doenças, ele corta as raízes dos apetites malsãos, ele prescreve um regime de vida, ele receita todos os contravenenos que podem salvar do mal.» Por seu lado, Orígenes escreve: «Nós curamos com o remédio da fé!»

Levando esta teoria às últimas consequências, os cristão chegaram a considerar ilícito o uso de medicamentos, como se só da oração e do exorcismo se pudesse esperar a saúde. Taciano, permitia o uso de remédios aos pagãos, mas proibia-o aos cristãos. « A cura pelos remédio» escreve ele, «provém em todos os casos, dum engano, pois se alguém é curado pela sua confiança nas propriedades da matéria, sê-lo-á muito mais se se abandonar à força de Deus.»

É verdade que nunca os cristãos pensaram que podiam curar sem a ajuda de Deus. Recorriam sempre à oração dos presbíteros e à unção sacramental. Em certos casos, pensava-se que a doença era devida a possessões demoníacas, e utilizou-se, por vezes em excesso, o exorcismo, sempre praticado em nome de Cristo.

Pouco a pouco, nas franjas do cristianismo, apareceram superstições e pseudomilagres, que ainda estão muito em uso no mundo cristão, mesmo esclarecido. É interessante registar que este tipo de “religiosidade”, com exorcismos, relíquias, amuletos e cerimónias mágicas, começou logo nos primeiros anos. Superstição e falsos milagres médicos, sempre andaram de mãos dadas na religião. Para o facto contribuiu o próprio Cristo: «Ide-vos embora» ordena Cristo aos dois doentes possessos de Gerasa. «Cala-te e sai deste homem», diz ele ao possesso dum espírito imundo da sinagoga. Hoje essas doenças pertencem ao campo da epilepsia e histeria.

Há alguns anos, o apresentador de televisão Pierre Dumayet, fez na televisão uma emissão sobre os ritos mágicos de que se serviam alguns camponeses para proteger o seu gado, cuja morte inexplicável era atribuída ao Demónio. O Prior da freguesia aparecia complacente no pequeno écran para explicar que recitava as orações do exorcismo e que isso dava excelentes resultados. Era mais eficaz e menos caro do que o veterinário. É interessante que os camponeses chamavam sempre o veterinário. Se, estatisticamente, os resultados obtidos com as orações exorcizantes fossem satisfatórios, não recorreriam a ele.

O objectivo da educação cristã deveria, pois, ser o de fazer homens livres, responsáveis, capazes de se conhecerem e aceitarem na plenitude que permite o dom generoso de si próprio. E não o de  espalhar a superstição.

4 thoughts on “Exorcismo e superstição”
  • Anónimo

    “O objectivo da educação cristã deveria, pois, ser o de fazer homens livres, responsáveis, capazes de se conhecerem e aceitarem na plenitude que permite o dom generoso de si próprio. E não o de espalhar a superstição.”

    Ora ora, F. Fernandes. A liberdade pressupõe a insubmissão. Logo, a religião, qualquer religião, NUNCA pode promover a liberdade. Pelo contrário, quanto mais submissos, os crentes, mais fiéis serão. E as religiões precisam de fiéis como a sede precisa de água. Você já imaginou o que seria se, de repente, os crentes desatassem a dizer «amanhã vou ter contigo ao café» em vez de dizerem «amanhã vou ter contigo ao café se deus quiser»? Já viu bem a gravidade da afirmação? Já viu que, aqui sim, estamos perante o verdadeiro livre-arbítrio, e não aquele “livre-arbítrio” que as religiões propagandeiam?
    E que, de repente, o Homem poderia começar a pensar que não precisa de deuses para nada? Já reparou que a sua frase designa, precisamente, não os seguidores de qualquer religião, mas sim os seguidores de NENHUMA religião, ou seja, os ateus? Porque esses é que são, verdadeiramente livres, responsáveis, e com vontade de se conhecerem a si próprios.

    Eu julgo saber aonde o F.Fernandes quer chegar: os princípios cristãos deveriam ser ensinados sem o recurso a mitologias. Se é isso, e se não é peço desculpa, deixe-me que lhe diga que esse tipo de ensino é utópico. Aplicar os princípios cristãos sem, logo a seguir, vir dizer que Jesus era filho de uma pomba… é complicado. Ninguém passava cartão ao ensinador. Não há nada como um pouco de mistério para que a aprendizagem resulte. Certa aprendizagem, entenda-se. Pela sua natureza, o Homem cumpre mais depressa se tiver medo do que se lhe disserem “assim é que está correcto”.

    Um abraço.

  • antoniofernando

    “É verdade que nunca os cristãos pensaram que podiam curar sem a ajuda de Deus”

    Também é verdade que nunca pensei assistir,aqui no D.A., que um articulista conseguisse descer tão intelectualmente baixo como F. Fernandes…

  • Anónimo

    Caríssimo JoseMoreira:

    Pior seria ainda dizer «amanhã vou ter contigo ao café» em vez de dizerem «amanhã vou ter contigo à missa»…

    Cumprimentos.

  • antoniofernando

    Assim como não há um padrão uniforme de ateus, também não existe um paradigma unânime de cristãos. Em nome de Cristo praticaram-se as maiores aleivosias e também os maiores actos de grandeza humana. Pelo facto de países como a União Soviética, a Albânia, a China e o Cambodja terem sido dirigidos por déspotas ateus como Estaline, Enver Hoxa, Mao Tse Tung e Pol Pot, todos eles perseguidores de crentes, isso não significa que devamos generalizar tais comportamentos como abrangendo todos os ateus. Eu sou um crente que não permitiria que fossem cometidas quaisquer perseguições sobre ateus, e não apenas pela circunstância de a minha mulher ser ateia e o meu melhor amigo também. Trata-se de questão ética elementar. Reconheço a todos os demais o pleno direito de possuírem as suas próprias convicções ou ausências delas, as suas específicas referências ou categorizações ideológicas. Estou também certo que muitos ateus se bateriam contra eventuais perseguições a crentes. A boa formação humana não depende das nossas formações ideológicas. Veja-se, por exemplo, o caso do Budismo, que não é um doutrina teísta, não possui nenhum credo de referência divina, mas tem um corpo de princípios éticos do mais elevado que existe. Na vertente do Catolicismo, todos conhecemos enormes exemplos de conduta humana e o contrário. Entre o teólogo menor, que foi Tomás de Aquino, instigador da morte dos dissidentes religiosos e misógino até dizer basta, e o grande Ambrósio de Milão, existe uma insuperável distância de uma ponta à outra do Universo.
    Aqui chegado, dizer-se, como afirma F. Fernandes, que “nunca os cristãos pensaram que podiam curar sem a ajuda de Deus” é envolver na mesma generalizada apreciação todos os cristãos, quer os que nela se revêem ou não. Há quem, sendo cristão, apele para a intervenção divina, é um facto. Mas também existem aqueles que entendem que não é aceitável apelar para benesses discriminadas de Deus. Eu sou cristão, mas não me revejo numa teologia de preces a pedido e muito menos de intercessões dos santos ou de Maria de Nazaré, seja ela perspectivada como a Virgem Maria ou como a Nossa Senhora dos católicos. Há muitos cristãos que, acima de tudo, entendem que a Doutrina de Cristo aponta para uma ética superior de generosidade e altruísmo. De compaixão pelos mais fracos e pobres, Por uma doutrina social e uma praxis política mais assente nos valores da cooperação e da partilha. Há muito mais Cristianismo para além de alguns grupelhos mafiosos que instrumentalizaram Cristo e a própria ICAR em benefício das suas lógicas egoístas de poder temporal. Sobre tudo isto, em vários artigos que F. Fernandes já aqui escreveu, não diz nada. Só diz o que serve para envolver nas suas análises preconceituosas o que se circunscreve o seu ateísmo de combate….

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