Loading

Treta da semana: vinte porcento.

Tenho lido algumas críticas à sugestão do Carlos Azevedo, o bispo auxiliar de Lisboa, para que os políticos cristãos contribuam 20% do seu ordenado para um fundo social. Há quem o acuse de demagogia, populismo ou até de hipocrisia. Não digam isso, coitado do homem. A ideia dele é boa. Contribuir uma parte do ordenado para um fundo comum de onde se financia aquilo de que todos precisam é uma excelente prática.

É verdade que não é novidade nenhuma para a maioria de nós, e quem ganhar mais que 600€ por mês já paga 23,5% só de IRS, sem contar com o resto. Os 20% do Carlos Azevedo são uma estimativa modesta. Mas penso que não se deve criticar tanto o bispo auxiliar porque ele é um dos poucos adultos portugueses que é inocente em matéria de impostos. Falta-lhe a nossa prática nisto. Há duas coisas que quase todos reconhecemos como inevitáveis; o fisco e a morte. De uma dessas os padres só dão promessas vagas de salvação, mas da outra estão bem protegidos.

Carlos Azevedo pede este dinheiro aos políticos católicos «para um fundo que vai ser criado junto da Caritas para atender às situações mais criticas e que serão veiculadas através das paróquias»(1). Ou seja, para os católicos darem dinheiro à Igreja Católica para ajudar outros católicos. Mais uma vez, é uma boa ideia. Mas, talvez pela falta de prática com isto dos impostos e por ter passado uma vida a julgar que justiça social é dar esmola aos pobrezinhos, falta ao bispo auxiliar uma visão mais abrangente do problema.

A crise não é por os políticos católicos não darem dinheiro à igreja do bispo (auxiliar). A crise é, em boa parte, por não conseguirmos pagar a educação, infraestrutura, saúde, segurança, administração e outros serviços dos quais o país precisa. Não cada um de nós, individualmente, mas todos em conjunto. E com isso vamos afundando o país em dívidas. A sopa dos pobres, no meio disto, é uma fatia mais pequena do que as tolerâncias de ponto há uns meses atrás.

Por isso aqui vai a minha contra-proposta para o bispo auxiliar. A ver o que ele acha. Em vez desse tal «testemunho de modo voluntário» que pede aos políticos católicos, de mais uma esmola para a Igreja distribuir pelos pobres que julgue merecer, proponho que todos façamos a nossa parte. Todos. E não é só 20%. Eu, contando com IRS, CGA e o resto, já vou nos 35%. Não peço mais ao senhor bispo auxiliar nem à sua Igreja, mesmo que não tenham filhos para criar. 35% dos vossos ordenados e do negócio da fé já era uma ajuda para o país.

E mesmo os padres que já dêem parte do seu salário à Igreja Católica deviam pensar neste problema de forma mais abrangente. Não é para os fundos desta ou daquela organização que devemos contribuir, que os fundos sociais não devem ser de uma religião, clube ou empresa. Devemos contribuir, por justiça e não por pena ou caridade, para o fundo que é de todos.

Já agora, um conselho. A Igreja Católica tem tido algumas dificuldades em preservar a sua imagem, metendo o pé na boca em quase todas as oportunidades. Para contrariar essa tendência sugiro que, em tempo de crise, foquem mais em tentar contribuir e menos em pedir dinheiro.

1- RTP, Igreja pede parte dos vencimentos aos políticos católicos, via este post do Carlos Esperança.

Em simultâneo no Que Treta!

4 thoughts on “Treta da semana: vinte porcento.”
  • antoniofernando

    Mas para quê os 20% sugeridos por Carlos Azevedo, se o Estado Português tem a obrigação de providenciar pela equitativa repartição da “riqueza” nacional , neste país tão equilibrado, onde ninguém foge aos impostos, onde não se gasta um único euro em obras sumptuosas, onde não existe nenhum autarca corrupto, nem sequer algum corruptor, onde não existem abissais diferenças das reformas dos portugueses, onde os nossos políticos são os primeiros a dar o exemplo de moderação salarial e de parcimónia nos rendimentos que se auto atribuem ? Mas não foi para esta exemplaridade de conduta cívica e de justiça social que se fez o 25 de Abril ? Então porquê dar atenção ao que propõe Carlos Azevedo se Portugal já é um país exemplar na forma de atender às necessidades sociais ?…

  • Molochbaal

    Concordo que seja demagogia fazer a proposta a favor de organismos da igreja.

    Mas a critíca à classe política é perfeitamente válida e legítima. Esses senhores são os principais responsáveis por tudo o que nos tem acontecido e escapam-se sempre com duas ou três reformas, algumas conseguidas ao de OITO anos de “duro” trabalho a assinar documentos elaborados pelos assessores.

  • Molochbaal

    Outra coisa. Acho que a igreja está a ter uma atitude estremamente DIGNA ao criticar o capitalismo, o neo-liberalismo e o sistema político que os impõe cegamente. A gente sabe que na prática eles se dão bem demais com banqueiros e o lobby empresarial. Mas penso que também se deve reconhecer quando se demarcam dessas forças e as criticam publicamente. E nisso, francamente, acho que os ateus estão a exagerar em só verem os defeitos da igreja e nunca reconhecerem quando se porta à altura.

    Estou a lembrar-me daquele vídeo que publicaram do mesmo bispo para gozarem com o dinheiro gasto pela hierarquia. Mas o mesmo vídeo era uma denúncia sublime e radical dos podres e das premissas do sistema neo-liberal e ninguém reparou nesse “pormenor” – o melhor cego é quem se quer fazer passar por cego…

  • Pedro

    Exacto e para dar ainda um melhor exemplo não há nada como pedir ao Paulo Portas João César das Neves e ao Marcelo para doarem imediatamente os seus 20%,afinal de contas eles são cristãos muito preocupados com os pobrezinhos e passam o tempo a defender políticas económicas fascistas como o neoliberalismo para ajudar os pobres e eliminar as assimetrias na sociedade.Oops, parece que a cristandade ficou na gaveta na hora da verdade.

You must be logged in to post a comment.