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Previsões

No sentido comum do termo, uma previsão é acerca do futuro. Não se prevê o passado nem o presente. Mas em ciência esta palavra tem um sentido diferente que gera alguma confusão. A previsão científica é aquilo um modelo diz acerca do que se pode observar, quer venha ainda a ocorrer quer tenha ocorrido no passado. Por exemplo, podemos dizer que um modelo cosmológico prevê uma certa frequência de supernovas mesmo apesar das supernovas que observarmos já terem explodido há centenas ou milhares de milhões de anos.

Esta ideia de inferir de modelos aquilo que se vai observar foi um passo importante no conhecimento. Antigamente o saber era listas de factos, que já é alguma coisa mas tem uma utilidade limitada. Os egípcios aprenderam a construir pirâmides depois de vários fracassos, até acertarem nas proporções. Depois fizeram daquela maneira. Só nos últimos séculos é que se criou modelos que permitem prever se uma estrutura se aguentam antes de a construir. Unificar os dados num modelo capaz de explicar e dizer mais alguma coisa é muito melhor do que saber apenas o que já foi testado.

Isto é importante não só para poder usar os modelos como para detectar e corrigir erros. Se o modelo que concebemos é que os seres vivos foram criados por milagre, ou que o Diabo anda por aí a fazer maldades às escondidas, além de não nos dizer nada de útil podemos estar redondamente enganados e nunca o descobrir. É como passar a vida julgando-se perseguido por anões invisíveis.

E a previsão, neste sentido, separa radicalmente as religiões da filosofia e ciência. No sentido coloquial as religiões têm previsões. Aos molhos. O livro do Apocalipse, por exemplo, prevê uma data de coisas estranhas. Mas não são previsões no sentido científico, de inferências que partam de modelos testáveis. Essas as religiões evitam porque perceber não lhes serve; o que faz perdurar uma tradição religiosa é a memorização, a aceitação do “saber” autoritário e o mistério. Em 1950, Pio XII declarou que Maria tinha ascendido ao Céu de corpo e alma. Não porque este modelo do suposto acontecimento unifique dados e preveja correctamente o que se venha a observar, mas pela «autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo»(1) e do Papa.

E muita gente acreditou.

Mas já uns séculos antes do filho do carpinteiro ter inspirado a moda uns gregos acharam que a sabedoria devia ser mais do que ir na cantiga dos sacerdotes. E começaram a formar ideias que lhes pudessem dizer alguma coisa testável acerca da realidade. O sucesso foi limitado, é verdade, e hoje em dia muitos consideram que a filosofia é mera especulação de sofá. Muita, infelizmente, até é. Mas, em parte, a classificação é injusta. No tempo de Demócrito ou Aristóteles não se conseguia perceber de que é feita a matéria ou porque as coisas caem. Faltava aprender muita coisa até que lá chegar. Mas eles tentaram. Tentaram dissecar o problema, compreender o que faltava saber e perceber como se pode discutir essas questões sem inventar autoridades ou ficar atolado em especulações vazias. E, séculos mais tarde, isso deu resultado.

O que prejudica a imagem da filosofia é que quando finalmente consegue criar modelos úteis passa a chamar-se ciência. Com o passar dos séculos, a filosofia mirrou do estudo de tudo ao estudo de umas poucas coisas problemáticas como a consciência, que ainda não sabemos onde encaixar na realidade, ou a ética, em que a realidade pouco ajuda*. Foi um enorme sucesso mas parece um fracasso.

As religiões ficaram de fora. De propósito. Ou fincam o pé em “factos” claramente contrários ao que se observa, como a Terra ter só uns milhares de anos e os fósseis terem sido depositados num dilúvio tão mágico que separou os grãos de pólen em estratos de acordo com a espécie de cada um. Ou se dedicam a especular sobre o que nunca se pode saber, como um outro mundo onde vive o Diabo, uma carrada de santos e a virgem Maria. Que ainda deve ser virgem, coitada, sendo única pessoa com corpo no meio de almas insubstanciais**. E ficam de fora porque as únicas previsões que fazem é que o mundo está quase a acabar – outra vez – e até isso inventam na altura.

* E uma carrada de tretas. Mas isso é inevitável quando não se tem forma de testar os modelos.
** A menos que lá apareça um bombista suicida. Estas coisas são um bocado confusas…

1- Vaticano, Definição do dogma da assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao Céu.

Em simultâneo no Que Treta!

11 thoughts on “Previsões”
  • antoniofernando

    Karl Popper veio,porém, demonstrar que a teoria científica será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que os resultados de uma previsão efectuada com base naquela teoria se verificaram. Essa teoria deverá gozar apenas do estatuto de uma teoria não (ou ainda não) contrariada pelos factos.Por isso, a tese da precariedade da ciência, tal como prudentemente vista por Popper, parece-me adequada a uma não divinização da Ciência.Convém também que os cientistas não sejam mais papistas, na sua esfera de actuação, do que a dogmática da Assunção de Maria, proclamada por PIo XII.. Quanto aos filósofos gregos, citados por Ludwig Krippahl, é certo que, quer Demócrito, quer Aristóteles, quer Pitágoras, que agora acrescento, procuraram entender toda a realidade, da qual a Metafísica não foi omitida nem silenciada.”Deus é demasiado perfeito para poder pensar noutra coisa senão em si próprio”, ou ” a Beleza é o dom de Deus”, ou ainda “a alma é a causa eficiente e o princípio organizador do corpo vivente”, disse Aristóteles. Pitágoras foi mais geométrico e sucinto. Era o seu espírito matemático a ditar regras esquematizadas mas nem por isso menos eloquentes:”a Evolução é a Lei da Vida, o Número é a Lei do Universo, a Unidade é a Lei de Deus” …

  • Antônio Alves, Brasil

    Em primeiro lugar, mais adequado não seria usar o termo “predição” para o que as teorias científicas propugnam? Ou seja, em certas condições, consideradas as variáveis, deve seguir-se X ou Y.
    Em segundo lugar, com relação à filosofia, ela ainda se demonstra como últil na medida em que o próprio desenvolvimento das ciências levanta questões que ultrapassam o escopo e a jurisdição de cada uma delas em separado. Da definição dos conceitos à determinação do estatuto da própria realidade objetiva, problemas surgem e ultrapassam o campo particular de cada forma de cientificidade. O que de modo algum pode servir de álibi para a permanência da metafísica tradicional, ou, pior ainda, da religião como balizas da reflexão.
    Ainda que alguns cientistas, oportunistas e ávidos por seu espaço na mídia, tentem coisas do gênero, como aproximar as ciências de tradições religiosas (Capra, antes, Kaku, hoje, são exemplos dessa postura absurda).

  • antoniofernando

    A Ciência tem mostrado, nas mais diversas áreas do suposto saber, tantas falhas na abordagem e explicação da ” realidade objectiva” que também não tem autoridade para vir sobranceiramente erigir-se no único critério de aferição dessa realidade. E depois, uma grande quantidade de cientistas são normalmente avessos a analisar outros contributos do Conhecimento que não se encaixam nos seus pressupostos preconceituosos. Tantos exemplos aqui podem ser dados. Podíamos começar, por exemplo, pela tragédia que foi a circulação da talidomida, certamente aprovada pela dita ciência farmacêutica, incapaz de prever os efeitos nefasto que causou em inúmeras crianças deficientes. Depois, que tal analisar o prémio Nobel da Medicina, Egas Moniz, cuja ” descoberta” da lobotomia é, hoje, considerada desastrosa e eticamente inadmissível em termos médicos? E quem é que presentemente pode asseverar validade científica à especulativa Psicanálise, com tantas divergências, a seu respeito, no seio da comunidade científica? Quem não conhece a polémica travada entre Einstein e Niels Bohr a propósito da validade ou invalidade do princípio da certeza quântica? Afinal, a ” ” realidade objectiva” do Cosmos é composta por quantas dimensões, quando, depois de Einstein, Theodor Kaluza veio postular a existência de uma 5ª dimensão e actualmente a teoria bosônica das cordas já vai em 26 ? Que explicação têm os neurocientistas para a fenomenologia das chamadas EQM ( experiências de quase morte), quando há estudos que mostram que várias pessoas, com o coração parado há vários minutos e sem actividade cerebral registada no electroencefalograma, “ressuscitaram” de mortes tidas por certas ? Como explicar que pessoas em profundo estado de inconsciência consigam relatar pormenores das tentativas médicas de salvação desses pacientes, que depois se vêm a confirmar exactos ? Como entender que, nesses relatos exactos, algumas pessoas consigam ver os seus próprios corpos, em situações de estados comatosos, e descrever as minudências das tentativas de reanimação ? A ” metafísica tradicional” não necessita de nenhum álibi para receber lições de ” objectividade real” quando o percurso histórico da evolução científica nos está constantemente a mostrar superação de conceitos e de verdades tidas por irrefutáveis. O Conhecimento não se esgota na precariedade das propostas científicas e a arrogância intelectual não é propriamente o melhor caminho para a apreensão da ” realidade objectiva”, seja ela qual for, se for possível captá-la. Algo que os teóricos da física quântica tradicional sempre afirmaram ser impossível. Mas, afinal, parafraseando Einstein, Deus joga ou não aos dados? Em que ficamos senhores apologistas da ” realidade objectiva”?…

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  • jovem1983

    Caríssimo antoniofernando:

    Sabemos que o método cientifico, quando respeitado escrupulosamente, tem tido resultados importantes em diversos domínios científicos. Um dos princípios a considerar centra-se nas ideias de hipótese e respectiva conclusão. Quando é realizada uma experiência esta ocorre sobre determinadas condicionantes (físicos, químicos, ambientais, tecnológicos, históricos, culturais, etc.), e os resultados a considerar enquanto conclusivos assentam precisamente sobre essas mesmas condicionantes, ou seja a hipótese afirmada ou infirmada aplicada a uma realidade particular, e que por sua vez gera conclusões particulares que podem ou não ser aplicadas segundo o enquadramento dos diversos condicionantes.

    Um exemplo prático retirado do dia-a-dia, em termos tecnológicos e materiais a resistência de um telemóvel está balizada segundo determinados condicionantes, por exemplo os níveis de temperatura e exposição à humidade (mínimos e máximos para o seu funcionamento e correcta utilização), mas o funcionamento do mesmo, isto é a comunicação a partir do telemóvel não depende só do equipamento móvel mas do sistema de antenas que fazem a transmissão da informação, e todo o restante enquadramento social, económico, cultural, etc. que possibilita a sua utilização mais ou menos alargada. Atendendo a todos estes aspectos, o desenvolvimento de novas experiências em vários campos, quer ao nível material, quer ao nível tecnológico, etc. etc., permitiram-nos obter equipamentos ao mesmo tempo cada vez mais sofisticados e resistentes. Na ausência de vários princípios que regem a ciência, e tendo como base o método cientifico, teríamos com certeza outra realidade neste domínio.

    Recorri a este exemplo porque é aquele que está mais generalizado no quotidiano da nossa sociedade actual, mas podemos pensar em tantos outros que tiveram igual sucesso ou que durante um período pensou-se que eram adequados para determinado fim e que hoje são questionados, mas essa questionabilidade entre determinado resultado para determinado fim num dado momento, bem como a noção que poderemos fazer melhor do que está e foi anteriormente, é um dos aspectos que distingue a ciência da metafísica.

    Os neuro-cientistas têm explicado o fenómeno de NDE (Near Death Experience) – ou EQM como mencionou correctamente – como uma reacção cerebral que ocorre com a alteração das condições/funcionamento do cérebro, nomeadamente na manutenção das suas funções e a supressão momentânea das mesmas. O aumento do número destas “experiências” está relacionado com o melhoramento da medicina e das técnicas de reanimação, resultando na efectivação do processo neurológico sintetizado anteriormente. Existem testes que corroboram este funcionamento do cérebro, em particular nos simuladores de velocidade da indústria aeronáutica e aeroespacial que atingem velocidades até 9G's, onde grande parte dos pilotos acaba por desmaiar devido à momentânea supressão de parte do fluxo sanguíneo por causa da pressão resultante do teste, e muitos relatam precisamente essas experiências de quase-morte, descrevendo que saíram do corpo e sentiram que estavam a pairar sobre a sala, etc..

    Até à data, na ausência de conhecimento que justifique o que acontece na nossa realidade, creio que o cepticismo e a manutenção da dúvida tem permitido esclarecimentos objectivos que a metafísica não concebe permitir.

    Cumprimentos.

  • antoniofernando

    Caro Jovem 1983:

    Com prazer leio sempre os seus inteligentes e equilibrados comentários. Seria estultícia da minha parte negar o enorme contributo da Ciência, nos mais diversos ramos do saber, para uma compreensão mais aprimorada dos fenómenos. Mas não divinizemos a Ciência como método exclusivo de aferição para a integral compreensão da Vida.

    “Os neuro-cientistas têm explicado o fenómeno de NDE (Near Death Experience) – ou EQM como mencionou correctamente – como uma reacção cerebral que ocorre com a alteração das condições/funcionamento do cérebro, nomeadamente na manutenção das suas funções e a supressão momentânea das mesmas.”, diz você.

    Mas repare que, com o devido respeito, está a totalizar incorrectamente quando se refere à generalidade dos ” neuro-cientistas”.

    Estudo esta temática há uns anos. E sei que existem várias explicações possíveis, de diversos neuro-cientistas, mas não apenas essa que refere.

    Por exemplo, o Prof. Manuel Domingos tem abordado esta temática de forma sistemática e séria e não aponta para a tese específica que você generaliza.Já o ouvi dissertar sobre esta temática de forma muito séria, equilibrada e não fundamentalista.

    Seja como for, expliquem-me como é possível alguém estar em estado de inconsciência profunda, em situações de risco de vida e ,depois, quando recobra a consciência, relata acontecimentos estranhos, mas reais, de se aperceber do que se está a passar na sala de operações, de se ver no tecto da mesma, de ouvir conversas, de circular mentalmente à vontade pelos espaços contíguos a essa sala, de relatar factos aí passados, etc ?

    Como é que isso é possível se a mente for o produto da mera actividade cerebral e não o contrário ?

    É o cérebro que produz o estado da mente ou esta pode ser independente do cérebro ?

    No caso de um aparelho de televisão, a título comparativo, as imagens são externas ao aparelho de captação ou é o televisor que as produz ?

    Todos nós sabemos que o televisor apenas as capta mas essas imagens pré – existem ao aparelho de captação.

    No caso do cérebro, pode haver lucidez mental fora do espaço circunscrito do cérebro e dos normais sentidos ou não ?

    Então, no caso das EQM, como é possível que haja múltiplos relatos de visões claras sobre o que se está a passar nas salas de operações e até em espaços contíguos se os pacientes estão aparentemente inconscientes e com os olhos fechados ?

    Para mim, a conclusão é óbvia:

    A mente ou a alma ou como se lhe queira chamar pode funcionar para além do próprio cérebro físico.

    E para se chegar a esta conclusão nem sequer é necessário acreditar em Deus.

    Os budistas, por exemplo, que não aludem a Deus, falam naturalmente dos”renascimentos”, referindo-se a múltiplas memórias de existências passadas, sustentando que há ” agregados mentais” que permanecem após a morte física…

  • jovem1983

    Caríssimo antoniofernando:

    Agradeço o cuidado e atenção.

    Não creio que haja uma “divinização” do método cientifico, mas o reconhecimento desse contributo para aquilo que se destina e tem como objecto a realidade concreta, aspecto basilar que distingue os diversos ramos científicos de outros ramos do conhecimento/saber da humanidade. Como sabemos, frequentemente observarmos a aplicação do termo “pseudo-ciências” a determinados ramos que, juntamente com outros factores, se arrogam dessa classificação distinta que assenta no método e na realidade concreta.

    Agradeço a sua correcção, de facto não tomei a atenção necessária e acabei por generalizar incorrectamente, mas a justificação sucinta que apresentei resultam de experiências e dados consistentes, com representatividade estatística. Nestes casos, os pilotos sujeitos a fortes pressões resultantes da experiência perderam os sentidos devido ao comportamento do fluxo sanguíneo do corpo humano se centrar nas extremidades, o que momentaneamente reduz substancialmente o fluxo de oxigénio ao cérebro. As descrições realizadas por vários pilotos, porque nem todos experimentaram essa condição, eram em tudo semelhantes às descritas por testemunhos clínicos, cujos sinais vitais foram controlados, verificando alguns paralelos em relação a efeitos comuns nas actividades cerebrais.

    A influência do Cérebro na determinação das funções fisiológicas e comportamentos está provada, neste último campo, entre outros exemplos, é famoso caso de Phineas Gage no Século XIX. Aquando da explosão e perfuração do seu cérebro, o perigo de vida e consequente recuperação, parte da sua personalidade e comportamento foram substancialmente alterados. Através de casos similares, e com os resultados de testes e experiências, tornou-se crescente o nosso conhecimento do modo como o cérebro é determinante para as funções fisiológicas e cognitivas do indivíduo. E estas experiências sobre as EQM tem apoio substancial nos respectivos testes e no conhecimento acumulado até à data sobre o papel deste importante órgão no nosso corpo e nas sensações que sentimos na nossa vida.

    Com isto não estou a determinar fatalmente o sentido desta noção, mas apenas reflectir a partir de um cepticismo cauteloso perante estas considerações provadas que nos mostram uma tendência para uma interpretação diferente em relação à morte física relacionada com a cessação das funções cerebrais.

  • antoniofernando

    Caro Jovem 1983

    Agradeço este interessante diálogo e compreendo a posição cautelosamente céptica que exprime em relação aos fenómenos das EQM. Mas do que li sobre o assunto, não se me afigura plausível que a falta de oxigénio no cérebro, conduzindo fisiologicamente à chamada hipóxia, explique cabalmente essa fenomenologia.

    Do que foi investigado, a nível mundial, àcerca dessa temática, incluindo, entre nós, o Prof. Manuel Domingos, existe um padrão habitualmente recorrente de sensações que acompanham as EQM:

    * um sentimento de paz interior;
    * a sensação de flutuar acima do seu corpo físico;
    * a percepção da presença de pessoas à sua volta;
    * visão de 360º;
    * ampliação de vários sentidos;
    * a sensação de viajar através de um túnel intensamente iluminado no fundo (efeito túnel).

    A nível de mudanças psicológicas e comportamentais,pós a Experiência de Quase-Morte os pacientes parecem alterar o próprio ponto de vista em relação ao mundo e às outras pessoas. As mudanças comportamentais são significativamente positivas. O principal factor para a mudança é a perda do medo da morte ; passam a valorizar mais as suas vidas e as dos outros; reavaliam os seus valores, ética e prioridades habituais; tornam-se mais serenos e confiantes.

    Aliás, também é curioso verificar que ocorrem muitas transformações em descrentes que passam a ser crentes. E, quanto a estes,a vivência de EQM fá-los assumir que, no domínio religioso, o que importa, não é o espaço delimitado das suas congregações mas a Religião entendida como Amor e Devoção aos seus semelhantes.

    Entre os que vivenciaram EQM, após tentativas de suicídio, os estudos feitos apontam no sentido de que as pessoas que passaram por essas experiências não tendem a repetir o cometimento do acto.

    Seja como for que se interprete esses fenómenos, não vejo, contudo, como a falta de oxigénio do cérebro possa provocar um aumento notório de clarividência, nos termos que normalmente são relatados por quem passou por EQM, independentemente da sua crença em Deus ou ausência dela.

    Os relatos existentes mostram que as descrições feitas por pessoas que sofreram EQM e que se encontram muito perto da morte vão ao ponto de especificarem pormenores dificilmente estendíveis em indivíduos que se encontram em estado de aparente inconsciência…

  • Antônio Alves, Brasil

    Ao assinalar os equívocos das ciências, ao invés de desqualificá-la (como queres), tão somente indicas o que estas têm de mais meritório: o conhecimento que avança ou se corrige ou se denega (tanto faz) a partir da pesquisa e das evidências e não de um suposto de autoridade absoluta. O maior mérito da racionalidade é que ela está sempre errada e o maior demérito das tradições religiosas ou místicas é que estão sempre “certas”! Não mudam, não aprendem, no máximo se adaptam às circunstâncias, tentando inclusive parasitar as ciências. O exemplo de Einstein que destes é perfeito: o deus do físico alemão nada tem de semelhante ao inventor de coisas a partir do nada, é a própria natureza OBJETIVA! Aliás, ele mesmo já havia declarado que “seu deus” era o de Spinoza e não o das religiões. Com relação à objetividade do mundo, um conselho: se tiveres alguma dúvida dela, basta atravessares uma avenida movimentada sem olhar para os lados e verás o resultado!
    PS: experiências de “quase-morte” são explicadas sim pela neurologia, como parte de uma sintomatologia da desoxigenação do cérebro. Como as pessoas de facto ainda não morreram, uma vez que foram revividas, quando elas voltam à consciência as lembranças do trauma recentíssimo vem à tona.
    Para terminar, nunca as ciências pretendem ou pretenderam explicar ou ter a última palavra para tudo! Quem gosta de “brincar de absoluto” é a religiosidade (e suas formas institucionais), não a cientificidade. O misticismo é o caminho dos apreçados e preguiçosos…

  • jovem1983

    Caríssimo antoniofernando:

    Agradeço igualmente a oportunidade de diálogo.

    Como reconhecerá, nem todas as descrições apresentam cumulativamente todas essas sensações ou mesmo resultados nos indivíduos.
    Sou da opinião que devemos ser sempre cautelosos e não sobrevalorizar as experiências que são avaliadas individualmente através de introspecção, pois estão largamente identificados os limites que esta técnica acarreta.

    Caso as pessoas mudem a sua vida no sentido da sua valorização essa situação será benéfica, e estão no pleno uso da sua liberdade, mas essa é uma viragem que pode ser certamente alcançada de outras maneiras e não constituem prova verificável e plausível de uma vida após a morte, pois as descrições relacionadas com as EQM também estão muitas vezes relacionadas com determinada crença em particular. Apenas critico veemente aqueles que procuram explorar financeiramente estes casos e fomentam um direccionismo conformista que contribui para a passividade dos indivíduos sobre esta e outras questões, condicionando as capacidades e a vontade das pessoas quererem conhecer mais.

    James Whinnery, do Mike Monroney Aeronautical Center, na década de 1980 e 1990, foi responsável por mais de 12.000 testes de pilotos num acelerador centrípeto que atinge o máximo de 9 G’s. Nesses testes ocorrem frequentemente perdas de consciência induzidas pela gravidade. Mike Monroney controlou as reacções dos pilotos (os sinais vitais são controlados, os procedimentos registados e gravados em vídeo, as reacções recolhidas), e cerca de 18% dos pilotos descreveram sensações identificadas nas EQM. O próprio Mike Monroney sujeitou-se ao teste várias vezes, experienciando cerca de 20/30 “EQM”, considerando que essas reacções podem ser a forma como o cérebro gere situações “ameaçadoras”.

    Cumprimentos.

  • antoniofernando

    António Alves:

    Por muito que não gostes, Einstein era pananteísta, portanto crente em Deus, na sua particular forma de acepção. Já aqui no DA publiquei uma série de afirmações de Einstein que são suficientemente eloquentes da sua visão teísta. Mas, se for necessário, voltar a inseri-las, fá-lo-ei para que fiques totalmente esclarecido. E, sem margem para quaisquer dúvidas aristotélicas. Quanto ao valor supremo da ” cientificidade” e da” realidade objectiva”, a história do percurso científico mostra-nos quanto a Ciência tem mais de relativo do que de absoluto Tempos houve em que eu próprio aprendi na escola primária que a distância mais curta entre dois pontos seria uma linha recta. Mas esse postulado, supostamente científico, estava errado: num espaço curvo, como é o do Universo, não há linhas rectas. Por isso, a distância mais curta entre dois pontos do espaço terá sempre que ser uma linha curva. Claro que poderia aqui multiplicar inúmeros e incontáveis exemplos da fragilidade dos critérios ditos científicos mas isso teria o grande inconveniente de incomodar os presunçosos aduladores da divinização científica. Quanto ao misticismo ser, para ti,” o caminho dos apreçados e preguiçosos”, o bom português manda que se escreva ” apressados” porque, para ” apreçados” intelectuais, já temos que chegue. A pressa não é boa conselheira. A ” preça” muito menos. Mas, para ti, que endeusas a ” cientificidade”, não reconhecerás certamente que poderá haver outra forma de Conhecimento, que advenha, não do ” positivismo” redutor da Física, mas do critério de avaliação da Metafísica. O Misticismo nada tem que ver com o caminho exclusivamente afunilado da Ciência, mas de uma outra forma de olhar para a “realidade objectiva”, de que tanto te ufanas. Deixo-te, a este propósito, um comentário de alguém muito “apreçado” e ” preguiçoso”, chamado Albert Einstein:

    “A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega”

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