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  • 22 de Julho, 2010
  • Por Carlos Esperança
  • Laicidade

A Igreja católica e os supermercados

Se o dogma é um insulto à inteligência mas uma vitória para a fé, se agride a razão mas purifica a alma, se fecha os caminhos difíceis da ciência mas abre as largas avenidas da salvação, como é possível haver quem o enjeite? – O Governo português não.

Como diria o Eça, estava o Ministério, moderadamente jejuado, razoavelmente confessado e melhor comungado quando piedosamente se pronunciou sobre o horário do comércio, não se dissesse que o liberalismo económico encontrara em Portugal terreno fértil. Privatizaram-se as seguradoras e os bancos, é verdade; condescendeu-se com a liberalização dos combustíveis e da energia; as comunicações e os cimentos entregaram-se aos privados, mas o Estado chamou a si o horário das mercearias.

Nos mares, nas estradas e nos ares circula a iniciativa privada mas respeita-se, na compra do sabão amarelo, o horário das repartições. Não tem horário a gasolina mas têm hora marcada a posta de pescada e o quilo de feijão carrapato.

Andou bem o Governo em proibir às grandes superfícies a abertura de portas ao Domingo. Preferiu a santa missa à venda dos legumes; dificultou a aquisição de frescos mas facilitou a divulgação das homilias; alguns bacalhaus ficaram por vender mas promoveu-se a eucaristia, com hóstias sem código de barras, nem prazo de validade, guardadas sem rede de frio nem inspecção sanitária. Folgam as caixas registadoras nas tardes de Domingo mas agitam-se as bandejas na missa do meio dia.

Contrariamente ao que eu supunha, não houve, porém, festa nas sacristias, não rejubilou o patriarcado, não aconteceu um lausperene. Nem uma missa de acção de graças. Nem uma noveninha. Provavelmente algum padre-nosso rezado na clandestinidade ou uma ave-maria balbuciada por uma beata enquanto resistia à tentação da carne e ao assédio do marido. A própria Conferência Episcopal desistiu da pastoral da mercearia.

Talvez por isso, os supermercados acabaram por abrir ao Domingo.

5 thoughts on “A Igreja católica e os supermercados”

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  • antoniofernando

    Que a Igreja Católica emita o entendimento que o Domingo deve ser dia de descanso semanal, acho normal. Nada me importuna essa opinião e considero-a coerente com os princípios teológicos em que a ICAR radica. Eu não tenho que me insurgir contra o facto de um ateu não acreditar em Deus ou não celebrar o Natal ou a Páscoa ou os comunistas serem apologistas da colectivização da economia. Ou então os liberais do mercado à rédea solta, incluindo na comercialização desenfreada em dias de domingo. Acho, no entanto, muito bem que o domingo seja instituído como dia normal de descanso semanal. Quanto ao facto de o dogma ser um “insulto à inteligência”, depende do que se entenda por dogma.Um crente, que acredita em Deus, é dogmático em relação à crença teísta. Um ateu, que é descrente, é dogmático em relação à não existência de Deus. O agnóstico tem o dogma da eterna incerteza. Todos, afinal, temos os nossos próprios dogmas…

  • Carlos Esperança

    Caro António Fernandes:

    Veja o texto como sátira. Não pretende ser mais do que isso.

  • antoniofernando

    Carlos Esperança:

    O seu texto está bem escrito. Mordaz, inteligente e com bom sentido de humor.Sinceramente gostei.

  • Carlos Esperança

    Nem todos os crentes têm sentido de humor. Também não são muitos os ateus que aceitem ser insultados sem responder à letra nem apagar as infâmias.

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