Loading

Apresentação na FMUP

Este é o vídeo da minha apresentação no debate do passado dia 21, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto:

Já agora, lembrei-me de uma história interessante que o padre José Nuno contou durante o debate. Era miúdo e estava a comer bolachas às escondidas da avó quando trovejou subitamente. A avó, apanhando-o em flagrante, disse que era Deus a ralhar. Mas ele contou que, felizmente, não tinha acreditado naquele deus que ralhava com trovões, senão nunca teria ido para padre. O deus em que ele acreditava era um deus que é amor, bonzinho e essas coisas.

Esta história singela ilustra bem como é falsa a ideia da religião como guia moral. A religião não é uma bússola que aponta para o bem. É um caixote delas, cada uma encravada na sua direcção, de onde cada crente tem de escolher uma que calhe apontar para algo minimamente aceitável. E se sabe escolher a bússola certa é porque já sabia distinguir, por si, entre o bem e o mal.

Quem sabe escolher uma religião decente não precisa de religião para ser decente. E quem não sabe é melhor não se meter nessas coisas…

Também no Que Treta!

13 thoughts on “Apresentação na FMUP”
  • antoniofernando

    Tal como na Ciência é necessário aferir, também na Religião o é.Sobre Deus existem várias concepções teológicas, mas as religiões monoteístas convergem todas num ponto em que há total consonância: o Universo e a vida foram criados por Deus.E Deus, sendo o Absoluto, não carece de ser questionado àcerca de outro Deus antes Dele, porque senão não seria Deus.

    “É FALSA A IDEIA DA RELIGIÃO COMO GUIA MORAL” diz Ludwig Krippahl.

    Mas de que religião está a falar ? Do Hinduísmo, do Bhagavad – Ghita, dos Vedas, dos Upanishads ? Está a falar do Alcorão ? Do Judaísmo ? Da Tora ? Do Espiritismo ? Do ” Livro dos Espíritos ” ? Ou está a meter tudo no mesmo saco ? Quando Cristo afirmou que as pessoas deviam amar até os inimigos, isso não consubstancia um guia moral ? Ou será antes a Lei de Talião, olho por olho,dente por dente ? Quando Cristo salvou de morte certa a mulher adúltera, não estava a traduzir esse comportamento numa norma moral ? Ou seria antes a lei moisaica que mandava lapidar as mulheres adúlteras ? Quando um crente tem como guia o mandamento cristão ” não matar”, essa directiva não traduz guia moral ? Ou serão antes as normas jurídicas dos países que aplicam a pena de morte ? Os 10 mandamentos não são normas de conduta moral ? Não ferir, não magoar, não prejudicar, não produzir falsos testemunho, não cometer agiotagem ,não são normas de conduta moral ? Quem sabe escolher uma religião decente não precisa de religião para ser decente, é um facto. Mas que mal vem ao mundo se seguirmos pessoas que são referenciais de conduta moral ? Gandhi, Martin Luther King,Nelson Mandela e Oscar Romero são todos eles crentes.Que mal veio ao mundo por terem fundamentado consequentemente as suas condutas humanas e éticas nas suas crenças teístas ? A questão essencial não é, como postula LK, não ser precisa religião para se ser decente. Não é de facto necessário.Simplesmente alguns acreditam em Deus e outros não. E os que acreditam não irão certamente abdicar das suas crenças só porque LK não acredita. Posso responder-lhe nos mesmos termos:não é preciso ser-se ateu para se ser decente. Basta ser-se pessoa de bom carácter…

  • jovem1983

    “Não se pode provar que deus não existe”. Esta linha de pensamento é absurdo. Não se provam negações.

  • Ludwig

    António,

    «Mas de que religião está a falar ?»

    Precisamente. Com tantas por onde escolher, é óbvio que a escolha tem de preceder a religião (se alguma escolha houver, pois muitos simplesmente herdam a religião que calhou aos seus pais).

    «não é preciso ser-se ateu para se ser decente. Basta ser-se pessoa de bom carácter…»

    Concordo. Por isso não digo que o ateísmo é, por si, um gia moral. É apenas a admissão que temos de ser nós a responsabilizarmo-nos pelas regras que decidimos seguir, e não podemos fingir que isso veio de um deus ou profeta nem delegar num livro essa responsabilidade.

    No entanto, há uma diferença importante. Parece-me uma virtude de carácter assumir responsabilidade pela distinção que se faz entre bem e mal, e um defeito ter uma crença tal que se possa atirar um avião contra um prédio porque lhe disseram que um deus quer isso.

  • Carlos Esperança

    Uma serena apresentação e uma bela síntese do pensamento dominante da AAP.

  • antoniofernando

    Deus remete para o domínio da Metafísica e não da Física. E, nessa medida, a Física não é critério para provar que Deus não existe. Os critérios da Ciência baseiam-se na experimentação e na validade da repetição das aferições. A Metafísica remete para um critério de ordem metafísica. Não física. E, do meu ponto de vista, o conceito de Deus é eminentemente pessoal.Quanto à natureza do Sentimento Religioso, a Ciência nunca entrará. Não é cientificamente possível provar a certeza de um sentimento. Depois, a crença em Deus consolida-se ao longo da História da Humanidade. Não é a mesma coisa que acreditar em elefantes com 365 patas.Quantas pessoas acreditam em unicórnios ? E quanto milhões acreditam em Deus ?…

  • antoniofernando

    Ouvi na íntegra o vídeo de Ludwig Krippahl e deixo aqui uma palavra de louvor pela forma superior, inteligente e educada como expôs os seus pontos de vista. Reconheço-lhes validade em muitos aspectos da sua intervenção.Noutros não. Mas é gratificante poder verificar a sua maneira elevada de dissertar. Parabéns.

  • jovem1983

    Caríssimo antoniofernando:

    Em qualquer domínio, a exigência da apresentação da prova é empregue na confirmação de determinado elemento, condição ou situação. Simplesmente não é possível confirmar uma afirmação pela sua própria negação. As ciências sociais e humanas recorrem a metodologias e métodos que permitem aferir percepções e reacções relativamente a determinados condicionantes, em todas as análises é preciso partir da confirmação e confirmação de uma hipótese, a partir desse ponto, com o desenvolvimento da investigação, dá-se como em qualquer outra ciência a confirmação de uma hipótese, precisamente segundo o princípio da demonstração da prova. Em todos os campos é impossível estabelecer como critério de verdade absoluta algo através da negação da hipótese. Qualquer confirmação neste último sentido é projectada a partir de convicções e percepções individualizáveis e, nessas condições, partilháveis com determinados grupos sujeitos a condicionantes similares ou que aportam as mesmas orientações. Compreendo a sua posição, mas a aplicação de um critério de verdade implica sempre a asserção da prova, nunca a sua inversão.

    Cumprimentos.

  • antoniofernando

    Caríssimo Jovem 1983:

    Grato pela sua achega.Entendi o seu ponto de vista mas mantenho o meu.Na minha óptica, não faz sentido equacionar a prova da existência ou não de Deus.O Divino é impossível de demonstrar cientificamente. Imagine que o meu amigo assistia a um evento normalmente tido por miraculoso, que ultrapassava as conhecidas leis da Natureza. Qual seria a sua reacção enquanto ateu ? Presumo que iria negar o carácter miraculoso do evento. Iria dizer que ou viu mal, ou estaria com alucinações, ou que foi tudo uma fraude. No limite da concessão, talvez dissesse que ” pode haver uma explicação científica que ainda se desconhece”. Um crente em Deus estaria mais mentalmente disponível para acreditar que esse acontecimento traduziria um milagre. Acredito que Deus não intervém casuisticamente na realidade humana. Mas acredito que alguns seres humanos de excepcional capacidade humana serão capazes de produzir fenómenos tidos por miraculosos.Acredito na Bondade Humana e que esta é capaz de intervir na própria dinâmica das leis tidas por naturais.Portanto, à partida, o facto de sermos ou não crentes, determina as nossas opções preferenciais. Claro que na questão dos milagres pode haver duas hipóteses teoricamente possíveis: serem verdadeiros ou não.O meu amigo provavelmente nunca admitirá nenhum, mesmo que confrontado com situações cientificamente inexplicáveis. Eu,se visse provas concludentes de que o suposto milagre era fraude, admiti-lo-ia claramente. Portanto, a questão de Deus remete sempre para a metafísica e para a convicção do sentimento. Como pode um crente provar que Deus existe ? Não pode. Apenas pode sentir que existe. E como pode um ateu provar que a imediação do sentimento religioso não é fonte da demonstração da existência de Deus ? Também não pode …

  • Abilio

    Escrevo sobre esta temática como forma de meditar sobre o debate a que tive o prazer de assistir no passado dia 20 de Maio de 2010, com o mesmo nome. Patrocinado pela Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, contou com a presença do Professor Ludwig Krippahl, do Pe. José Nuno Ferreira da Silva, Capelão do Hospital de São João, no Porto, e ainda com a presença do Dr. Carlos Magno, Jornalista, na qualidade de moderador.

    O debate principiou com uma pequena exposição do Professor Ludwig Krippahl sobre os fundamentos do ateísmo e sobre a problemática Religião e Ateísmo – onde procurou apresentar além dos fundamentos, algumas reflexões e respectivas conclusões sobre essa mesma problemática. De seguida, foi dada a palavra ao Pe José Nuno que procurou dar o seu testemunho pessoal de pessoa crente e de sacerdote. Não posso deixar de referir que também o Dr. Carlos Magno, na qualidade de moderador, fez intervenções pertinentes – seja sob a forma de diálogos com a assistência, seja sob a forma de pequenas provocações de modo a suscitar o debate entre todos – elementos da mesa e assistência.

    Considero que o debate foi interessante na medida em que constituiu uma oportunidade de, sendo crente, ouvir aqueles que não o são – ouvir os seus fundamentos, dúvidas, reflexões e argumentos. Foi mais uma oportunidade, na medida em que eu próprio tenho amigos que são agnósticos e ateus.

    Posto isto, importa agora, talvez, procurar dar uma definição possível do que será isso de religião e ateísmo. No que diz respeito à religião, esta refere-se a uma ligação ao transcendente, a um poder superior do qual o homem depende. Quanto ao ateísmo, segundo percebi, este prende-se com a convicção de que não existe transcendente, poder superior ou qualquer tipo de «deus» do qual o homem dependa. O ateísmo fundamenta a sua posição na inexistência de provas cientificamente obtidas, e passíveis de replicação, relativamente à existência de Deus. A religião, representada aqui pela fé em Jesus Cristo, fundamenta sua posição relativamente à existência de Deus precisamente no testemunho que é dado por Jesus Cristo sobre essa mesma existência e sobre a Sua pessoa. Ambos os «lados» conscientes de que, assim como não há provas de que Deus existe, também não as há de que Ele não existe. Algo que não as impediu de dialogar, como aliás se viu.

    Houve dois momentos, ou melhor, duas afirmações proferidas por dois ateus que me marcaram profundamente: a primeira delas foi proferida pelo Dr. Ludwig – “Eles não as têm, mas nós temos dúvidas”; a segunda por uma das pessoas da assistência, Nuno Leal – “A religião mata! A Igreja Católica foi a instituição que mais matou na história!”. E porque é que me marcaram? Por considerar que são afirmações que não correspondem de todo à verdade. Embora à primeira vista pareçam fazer todo o sentido.

    Posso dizer, com toda a certeza de que sou capaz, que o facto de ser crente, não me garante todas as certezas do mundo, não me impede de ter dúvidas. Eu, assim como todos os ateus, e demais pessoas, também tenho dúvidas e tenho muitas. Mais: penso que é precisamente o ter dúvidas que cria espaço à descoberta, à reflexão de modo a crescer como pessoa que sou, tanto no conhecimento do mundo como no aprofundamento da fé em Jesus Cristo – se assim não fosse, aonde estaria a minha liberdade? Aonde haveria espaço para um conhecimento mais profundo de mim, do outro e de tudo o que me rodeia? Aonde haveria espaço para me superar a mim mesmo e crescer na fé, na esperança e na caridade? Assim como a ciência é todo um processo gradual de conhecimento e de caminho rumo às causas últimas dos múltiplos fenómenos e problemáticas existentes, o mesmo se passa com a fé e a pertença a uma comunidade crente – é um caminho pessoal e ao mesmo tempo comunitário, conjunto, rumo Àquele que nos revela a essência de nós mesmos e nos faz descobrir como detentores de uma mesma dignidade humana, independentemente da idade, nacionalidade ou condição social.

    “A religião mata! A Igreja Católica foi a instituição que mais matou na história!”… É verdade – em nome da religião é-se capaz de matar. Em nome da Igreja e da Fé, muitas vítimas se fizeram ao longo dos séculos. Não há como nem porque esconder isso. Faz parte da história das religiões; faz parte da história das diversas igrejas. Diria até que faz parte da história da humanidade. Há que reconhecer. Há que assumir como todas as letras que isso aconteceu. Mas como é que se pode dizer tão categoricamente que a religião, e especificamente a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), mata? Que é a instituição que mais mortes causou na história? Como esquecer o genocídio arménio, perpetrado pelo Império Otomano (1915); como não recordar o Holocausto levado a cabo pelo III Reich (1933-1945); como não recordar as mortes provocadas pelas I e II Guerras Mundiais (1914-1918; 1939-1945); como não recordar as mortes ocorridas na ex-URSS, ex-Jugoslávia, no Vietname, sob o regime dos Khmers Vermelhos? Como esquecer as mortes causadas pelas guerras no Sudão, no Darfur, na República Democrática do Congo, no Rwanda?… Com estes exemplos, com todos eles, a única coisa que posso concluir é a de que o responsável por todas estas mortes é o ser humano e não Deus. Repito: foi o homem, e não Deus, que matou todos estes homens, mulheres e crianças ao longo dos séculos. Além do que também não se pode negar que a ICAR, enquanto instituição, enquanto comunidade de pessoas crentes, leva amor e bem-estar a muitos seres humanos neste mundo que, de outro modo, não o teriam.

    Fazer categoricamente uma afirmação da natureza daquela que referi acima, denota, na minha opinião, um profundo desconhecimento, ou melhor dito, um conhecimento parcial e enviesado da realidade da fé cristã. Além disso, leva-me a reflectir se porventura, na actualidade, alguns sectores do ateísmo não estarão a ter a mesmíssima atitude de intolerância e fanatismo que durante tantos séculos acusaram a religião, em geral, e a ICAR, em particular, de possuir e praticar para com aqueles que não professavam a fé…

    Outro dos momentos do debate que me levou a reflectir foi aquele em que, a certa altura, se disse que, por causa dos erros praticados no passado e no presente, a ICAR não tinha autoridade para propor normas de conduta moral. Isto levou-me a reflectir que, reconhecendo plenamente que a ICAR, porque comunidade de pessoas passíveis de errar, comete erros, isso não a impede de reconhecer como válidos certos princípios e condutas morais, porque potenciadoras de vida na verdadeira acepção da palavra. É precisamente porque se reconhece como uma comunidade que nem sempre é fiel a esses mesmos princípios, que a faz reconhecê-los como plenamente válidos e a faz procurar ser coerente no seu agir, ainda que não o seja ainda totalmente. Não será o mesmo com todos os homens – crentes e não crentes? Teremos sido sempre fiéis e coerentes, em toda e qualquer circunstância, face aos valores em que acreditamos? Com certeza que me dirão que não. E, no entanto, isso não nos impede de continuar a reconhecê-los e a defendê-los como plenamente válidos para nós e, quiçá para outros, ou impede? Penso que me dirão que não, logo será que deixamos de ter autoridade para propor valores para a nossa vida, convidando outros a fazer a mesma experiência? Não, dirão. Assim é connosco. Assim é também na Igreja.

    Termino relembrando uma pequena história bíblica – Jo 8, 1-11:

    «1*Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. 3Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio 4e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. 5Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» 6Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. 7Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» 8E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. 9Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. 10Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»»

    Vale a pena pensar nisto.

    Abílio

  • jovem1983

    Caríssimo antoniofernando:

    Interpretei as suas referências sobre supostos “milagres” no campo da Medicina ou da Física, excluindo associações ditas milagrosas resultantes de determinados eventos (como exemplo sobreviventes em catástrofes naturais ou acidentes com veículos, etc.). Por ter mencionado a hipótese de alucinações como possível justificação na posição de ateus, não tenho outro elemento para comentar considerações a esse nível, por isso não desenvolverei de momento qualquer comentário nesse âmbito.
    Caso não tenha interpretado da forma correcta o seu comentário tenha a amabilidade de prestar esclarecimento.

    Em relação a estes domínios, e sobre os acontecimentos tidos como extraordinários, e que não têm imediatamente qualquer explicação assente no conhecimento alcançado pela humanidade, mantenho um distanciamento de qualquer conclusão. Primeiramente, fico a aguardar a devida e por vezes morosa investigação do fenómeno tido como anormal, em segundo lugar, caso não haja uma conclusão, e não deixando de atender à História da humanidade nos domínios do conhecimento (os seus desenvolvimentos e os impactos desses processos nas sociedades), aguardarei outros progressos que poderão devidamente esclarecer o que se ponderou como extraordinário, um esclarecimento assente em pressupostos concretos, próprios da realidade, atendendo que foi precisamente nessa dimensão que ocorreram.

    Qualquer pessoa está no uso do seu pleno direito para atribuir a essas situações de aparente ausência de explicação um determinado valor assente no seu sentimento. Quando escrevi aparente interprete no sentido do imediato, o “rescaldo” dos acontecimentos, isto porque muitas atribuições no sentido extraordinário surgem dessa forma e, por isso, não facultam a margem necessária, mediata, para as devidas análises, onde a resposta pode provir de outro ramo ou campo científico, ou esse conhecimento esteja então apreendido noutras comunidades científicas de áreas geográficas distintas onde o “fenómeno” primeiramente ocorreu. Vivemos tempos globais, mas ainda há fronteiras dificilmente transponíveis. Isto é, determinados desenvolvimentos científicos estão mais desenvolvidos em determinadas comunidades científicas, e os tempos de divulgação desses resultados estão dependentes da apreciação dos pares, posterior apresentação pública e publicação, bem como ainda existem barreiras linguísticas na divulgação do conhecimento. Por exemplo, Portugal não é um dos principais países produtores de conhecimento, bem como estamos muito distantes das produções desenvolvidas em países orientais muito competitivos por causa de barreiras linguísticas – como o Japão – onde muita da sua produção depende do trabalho de profissionais nas áreas da tradução. Perante este quadro, que é bem mais complexo do que apresentei, a obtenção de conhecimento é um processo moroso e dispendioso, e por isso requer dedicação e investimento, e qualquer investigação séria demorará a ser concluída. Também por isto considero que a atribuição de uma classificação miraculosa a um dado acontecimento ou recuperação é manifestamente um dado de certo modo impulsivo. Espero que compreenda a minha posição, como penso ter compreendido a sua.

    Cumprimentos

    Você mantém uma atitude receptiva aos acontecimentos extraordinários que não mantenho, e não mantenho por mera convicção de ateu, mantenho porque são conhecidos ao longo dos tempos diversas situações, maleitas, curas, etc., que explicaram várias situações tidas como milagrosas, mas que hoje têm explicação na realidade. Felicitou-o pela sua coragem em denunciar qualquer manipulação fraudulenta, “nem todos dão o braço a torcer”.

  • Baal

    Aí tens o pequeno problema de os ateus acharem que, se um católico radical mata um ateu ou um rival religioso, isso é por causa da religião. Mas se for um ateu radical a matar um religioso, por ser religioso, já dizem que o ateísmo não tem nada a ver com isso.

    Esta é uma das maiores contradições do ateus radicais.

    Torquemada perseguiu os ateus porque era fanático religioso, Béria perseguiu a religião já não por ser um fanático ateu, mas só por ser fanático. Vá lá a gente saber porquê…

  • Baal

    “No entanto, há uma diferença importante. Parece-me uma virtude de carácter assumir responsabilidade pela distinção que se faz entre bem e mal, e um defeito ter uma crença tal que se possa atirar um avião contra um prédio porque lhe disseram que um deus quer isso.”

    E se for porque lhe disseram que um líder ateu quer isso ? Qual é então a diferença ?

    A História está cheia de crimes semelhantes à destruição das torres gémeas perpetrados por ateus fanáticos ás ordens de outros ateus fanáticos.

    O khmer vermelho tinha milhões de fanáticos antireligiosos que assassinaram milhões de pessoas apenas porque lhes disseram que os seus chefes ateus queriam isso. Francamente não estou a ver qualquer diferença.

  • Abilio

    Permitam-me fazer uma correcção: os Khmers Vermelhos não foram um regime do Vietname, mas sim do Camboja (1975-1979).

You must be logged in to post a comment.