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Inteligência e croché

Eu sei como resolver equações diferenciais. A minha avó não faz ideia o que isso seja mas sabe fazer croché. Muita gente pensa que resolver equações diferenciais exige mais inteligência, mostrando que uma opinião não é mais fiável só por muitos opinarem o mesmo. Resolver equações diferenciais é tão trivial que com meia dúzia de linhas de código se põe um computador a fazê-lo. A minha avó faz croché ao mesmo tempo que segue os diálogos da novela, conversa com a vizinha e decide o que vai fazer para o jantar, coisa que ninguém faz ideia de como por um computador a fazer.

Não sei se um poeta é mais inteligente que um bailarino ou se ser professor e ensinar informática demonstra mais inteligência que ser avó e fazer croché. Quando tentamos ver em detalhe quanta informação se tem de processar para executar uma tarefa, muito do que nos parece trivial se revela extremamente complexo. E vice-versa. Temos programas de computador que vencem qualquer um no Xadrez mas nem um que perceba a piada da anedota mais simples. Por isso não sei dizer se um crente é mais ou menos inteligente que um descrente ou se a crença tem alguma coisa que ver com inteligência, uma capacidade tão abrangente que nem sei bem em que consiste.

Mas há uma coisa que me parece estar relacionada a diferença entre crente e descrente. À falta de um nome melhor, e não querendo confundi-la com inteligência, direi que é prática na análise crítica de proposições. A minha avó tem a quarta classe e quase tudo o que julga ser verdade aprendeu porque confiou em quem lho disse. Nos professores, nos pais, nos padres, na TV. Apesar de ter vivido muito mais que eu, teve poucas oportunidades (e menos encorajamento) para questionar se essas afirmações eram verdadeiras ou falsas e como responder a essa questão. Só aprendeu a acreditar e, com poucas oportunidades de aprender pela dúvida, até acha que duvidar é má educação.

E como a minha avó há milhares de milhões de pessoas. Nas estepes da Mongólia, nas favelas do Brasil, nas aldeias do Paquistão. E também nos países mais ricos, que poucos têm a possibilidade de ganhar a vida questionando hipóteses e pensando em como distinguir o verdadeiro do falso. E assim proliferam as superstições, entre as quais aquelas a que chamam religião.

Sei que muitos que se dizem entendidos nestas coisas alegam que religião e superstição são diferentes. Só que nunca explicam a diferença*, e a religião sentida da maioria dos crentes, os que pedem e negoceiam os favores dos deuses, é igual a qualquer outra superstição. Só no ar rarefeito da teologia e da exegese é que se discute, a par do sexo dos anjos, a diferença entre crer que a ferradura dá sorte e crer que a hóstia se transubstancia.

Mas é com esses que discuto religião. Não é com a minha avó, ou com a maioria dos crentes, que crêem porque sim e para quem isso não se discute. Discuto apenas com os que dizem estudar essas coisas. E, ao contrário do que me acusam por vezes, não assumo que são menos inteligentes ou menos capazes de distinguir o verdadeiro e o falso. Discuto com quem me parece querer discutir o assunto e ser perfeitamente capaz de o fazer. No entanto, há na posição do crente um obstáculo difícil de transpor. Não é falta de inteligência ou de capacidades. Nem sequer é aquela falta de treino que me dissuade de discutir isto com a minha avó. É a crença.

Essa é a grande diferença. A minha descrença é uma conclusão que proponho defender no diálogo. É o ponto final de um raciocínio no qual posso mostrar a sequência de razões que me conduzem a essa conclusão. Todos sabemos que danos no cérebro afectam a mente e essa fragilidade é evidência que não resistimos à morte do corpo. Todos sabemos que há crianças que pisam minas e ficam estropiadas, ou morrem de cancro, ou nascem com deficiências, e isso indica não haver um deus omnipotente a cuidar dos inocentes. Eu posso apontar o porquê da minha descrença com razões que o meu interlocutor reconheça serem verdade.

Em contraste, o crente assume a verdade daquilo em que crê sem nada que a possa justificar a quem não creia. Acredita numa vida eterna sem dados que suportem essa hipótese. Acredita que existe um deus, aquele deus, sem evidências disso. Conclui as premissas. Mas não de forma banal. A caminho do ponto de partida invoca a tradição, cita autoridades, aponta que não se pode provar o contrário, fala em amor, relação e razão, usa maiúsculas q.b., chama liberdade ao infortúnio e faz corar o Dr. Pangloss. Não falta nisto inteligência nem revela capacidades diminuídas. Mas opta por não contribuir para o diálogo racional, cujo objectivo é encontrar as razões aceites por ambas as partes que justifiquem uma conclusão consensual. Em vez disso faz croché com as palavras.

Admito que o croché tem mérito. Não é qualquer um que consegue. Mas é uma arte meramente decorativa.

*Há uma excepção que devo notar. Uma vez vi um antropólogo entrevistado na TV, penso que na RTP-2. Não me lembro do nome do senhor, mas à pergunta acerca da diferença entre religião e superstição ele disse haver um critério simples. Em cada cultura, religião é a sua e superstição as dos outros.

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16 thoughts on “Inteligência e croché”
  • antoniofernando

    Ludwig Krippahl escreve bem. Fala muito sobre critérios de evidência científica para refutar a metafísica. Mas, no meu tempo de escolaridade primária, ensinaram-me que a distância mais curta entre dois pontos era uma linha recta, como ” era por demais evidente”. Passados anos, vim a concluir que me tinham ensinado um postulado científico errado. Se todo o Universo é redondo, linhas rectas não existem. A distância mais curta entre dois pontos é sempre uma linha redonda, porque linhas rectas não existem. Sempre também pensei que a mesa onde trabalho ou onde degusto as minhas refeições está parada. Foi também isso que me ensinaram quando me falaram das coisas estáticas. Mas também mais uma vez me enganaram. Nada na Natureza está parado. Toda a estrutura elementar da matéria está em movimento. Uma mesa, por mais que esteja assente no chão, está em constante movimento. Contra todas as ” evidências”.O mundo parece tão real. Foi isso que também ” cientificamente” me ensinaram. Ainda aqui novamente me enganaram. Einstein veio também proclamar que ” a Realidade é uma Ilusão, mas uma Ilusão muito consistente”.O Prof. António Damásio tem-se afadigado a demonstrar que a mente não existe. E que ela é o mero resultado do funcionamento do cérebro. Porém o Prof. Manuel Domingos, cientista estudioso dos fenómenos de quase morte, veio revelar casos da sua experiência profissional que claramente põem em causa o postulado supostamente científico de Damásio. Também me ensinaram na escola que o Presente existe e que essa asserção era de tal forma evidente que nem valia a pena perder tempo em analisá-la criticamente. Mas é completamente impossível alguém ver o Presente. Quando vemos a onda do mar rebentar já pertence ao Passado. Contra todas as “evidências científicas”, ninguém consegue ver o Presente. Deus pode não intervir no mundo como LK sustenta e Einstein também sustentava, porque, embora acreditando numa concepção pananteísta de Deus, não admitia a visão judaico-cristã de um Deus interventor. Contudo, talvez a melhor forma de equacionar a hipótese Deus seja admiti-lo com um Ser “sarcástico” que põe a cabeça em água ao mais convencido dos cientistas. Como eu sinto Deus? Através do sentimento. Podem dizer-me que isso não prova nada, mas as minhas convicções também não estão sujeitas a escrutínio popular. Quem me pode também garantir que o Amor existe na Humanidade? Respondem-me que todas as evidências apontam nesse sentido? Que há mães e pais que amam os seus filhos? Mas quem me diz que não somos todos psicopatas que fingimos os nossos sentimentos sob a capa de uma falsa generosidade ou de um falso altruísmo para alcançarmos os fins egoístas que verdadeiramente nos animam? Qual é o cientista que pode entrar na mente ou na alma de cada ser humano? Afinal, que peso têm as ” evidências científicas” contra o peso do sentimento religioso? Claro que se algum cientista quiser vir com o argumento de que Deus não existe, nem sequer como Criador do Universo, porque não é possível vê-lO sentado num trono celestial, estou certo que Einstein responderia: ” não me venham com mais tolices pseudo-científicas”…

  • Alfredo Dinis

    Caro Ludwig,

    Afirmas:

    “A minha descrença é uma conclusão que proponho defender no diálogo. É o ponto final de um raciocínio no qual posso mostrar a sequência de razões que me conduzem a essa conclusão. Todos sabemos que danos no cérebro afectam a mente e essa fragilidade é evidência que não resistimos à morte do corpo. Todos sabemos que há crianças que pisam minas e ficam estropiadas, ou morrem de cancro, ou nascem com deficiências, e isso indica não haver um deus omnipotente a cuidar dos inocentes. Eu posso apontar o porquê da minha descrença com razões que o meu interlocutor reconheça serem verdade.”

    Creio que, de facto, a tua descrença é o ponto final mas é também o ponto inicial dos teus argumentos. Partes sempre de premissas que já contêm a conclusão, mas assim podemos provar o que quisermos. Por exemplo:

    P1: Todos sabemos que danos do cérebro afectam a mente, e essa fragilidade é evidência que não resistimos à morte do corpo
    P2: Ora, isto prova que não há vida depois da morte e, por conseguinte, não há Deus.
    Conclusão: Não há vida depois da morte e não há Deus

    Ou então:

    P1: Todos sabemos que há crianças que pisam minas e ficam estropiadas, ou morrem de cancro, ou nascem com deficiências,
    P2: isso indica não haver um deus omnipotente a cuidar dos inocentes.
    Conclusão: Não há um deus omnipotente a cuidar dos inocentes.

    A debilidade dos teus argumentos – de todos eles – sobre a inexistência de Deus está precisamente aqui. Este é um erro de argumentação muito antigo e muito conhecido na teoria da argumentação. Tu fazes determinadas afirmações que não passam de premissas, e automaticamente consideras que são tão evidentes que só podem levar a uma conclusão já afirmada – explícita ou implicitamente – nas premissas.

    Se a fundamentação da descrença fosse assim tão simples e evidente, não sei por que razão a questão da existência de Deus continua a preocupar pessoas inteligentes que não crêem. Li há pouco um texto de Christoph Koch, conhecido investigador na área da biologia da consciência, sobre esta questão. Koch publicou um bom número de artigos de investigação sobre a consciência juntamente com o famoso Francis Crick. Já tive oportunidade de trocar alguns mails com eleO texto está na sua página pessoal. Ele não é crente, mas não considera ser uma perda de tempo nem uma idiotice pensar e escrever sobre a questão da existência de Deus. Como ele há muitos outros. Não sei se respondes como a Doutora Palmira, conhecida ateia e membro do Diário Ateísta, que me disse um dia que “as pessoas acreditam no que querem”, como explicação para o facto de muitos cientistas acreditarem em Deus ou acharem que vale a pena discutir o assunto, sem partir da premissa que Deus não existe, como me parece que faz ela e fazes tu.

    Imagina que eu defendia a tese de que o Ludwig irá parar ao inferno com o seguinte argumento:

    P1: Quem nega a existência de Deus irá parar ao inferno
    P2: O Ludwig nega a existência de Deus
    Conclusão: O Ludwig irá parar ao inferno

    Qualquer estudante de lógica sabe que este é um argumento logicamente válido, mas apenas do ponto de vista formal. A conclusão só será verdadeira se as premissas o forem. A segunda premissa é certamente verdadeira, mas a primeira é muito discutível e, de facto, eu penso que é falsa.
    A conclusão nada acrescenta às premissas, cuja verdade é preciso demonstrar.

    Um abraço,

    Alfredo

  • jovem1983

    Creio que a questão essencial entre crentes e descrentes não se trata de uma questão de inteligência. De uma posição ou da outra há pessoas inteligentes, contudo a questão prende-se ao nível da percepção da realidade, onde os crentes sustêm superstições com base nas suas convicções. Por exemplo, este raciocínio lógico é de inquestionável importância, contudo a percepção individual é capaz de sugestionar o seu valor:

    a) O Homem criou a Cultura;
    b) Os Deuses são criações Culturais
    c) O Homem criou os deuses.

  • antoniofernando

    “POR ISSO NÃO SEI DIZER SE UM CRENTE É MAIS OU MENOS INTELIGENTE QUE UM DESCRENTE”

    Há questões que não deviam ser trazidas a debate. Porém,quando transportadas ou escogitadas como fez LK, a ironia pode ser usada como argumento de refutação.LK não sabe dizer se ” um crente” é ” mais ou menos inteligente” que um ” descrente” não é, a meu ver,argumento que se equacione.É fraco demais para estar ao nível da inteligência superior de LK.Porém, há mensagens ou subtilezas subliminares que dificilmente passam despercebidas e merecem resposta adequada.Se LK desenvolveu o tema a que se exercitou, nos termos em que o fez, não me parece nada razoável que, nesta altura do campeonato, ainda ele equacione se ” um crente” é mais ou menos inteligente do que ” um descrente”.Isso é algo que nem uma criança suscitaria. E essa é uma daquelas frases ” assassinas” que se vira contra o próprio articulista. Quem não quer ser preconceituoso não lhe veste a pele. E LK quis vesti-la. Não precisava de ir por esses caminhos ínvios. LK escreve bem, é inteligente e coloca questões bem interessantes. Enquanto crente, perfilho do ponto de vista que há concepções absurdas de Deus.Por exemplo, as que insanamente se apresentam quando ocorrem grandes tragédias como a do Haiti. Se há milhares que morrem, foi a suposta ” vontade de Deus”. Se há alguns que se salvam, foi ” milagre de Deus”. Claro que Deus não pode ser um demiurgo arbitrário, que salva ou condena conforme lhe dá na gana…

  • ricardodabo

    Caro Antonio Fernando, não sei quem você é, não me lembro de ter lido alguma coisa sua antes, embora me pareça lembrar o seu nome. Enfim… Li o seu último comentário, achei-o bem escrito e bem articulado. Mas, como ateu, é claro que ele não me convence. Você repete um erro que é típico de todos os crentes, ou seja, fiar a sua crença pessoal não no mérito da crença, mas nas debilidades alheias. Canso de ouvir crente invocar a insuficiência da razão para justificar as suas crenças. Dizem: “A razão não pode tudo. A razão não me permite desfrutar a melodia dessa música, por exemplo”. O passo seguinte é recorrer à fé para apoiar a sua crença na Santissima Trindade ou na imortalidade da alma.Uma vez um articulista começou um texto mais ou menos assim: “Alguns amigos não entendem como um homem tão inteligente como eu pode acreditar na Santissima Trindade. Ora, todo racionalista decente reconhece as limitações da razão e se permite acreditar em coisas que não podem ser demonstradas logicamente”. E porque a razão é limitada ele se permite acreditar na Santissima Trindade, sem ter qualquer outro motivo para isso. É como se um homem provasse a moralidade das suas ações pela imoralidade das ações de seu vizinho. O fundamento desse tipo de crença é, digamos assim, negativo. Você me parece fazer a mesma coisa que o tal articulista. Algumas coisas parecem evidentes e você descobre mais tarde que, apesar disso, elas são falsas. Então por que não acreditar em Deus? Ele não parece evidente à primeira vista, mas assim como não existe linha reta, ele talvez exista. A sua crença parece se basear nas peças que a realidade prega ao nosso senso comum. Me parece que o seu motivo para acreditar em Deus é a debilidade do senso comum. Não sei se me fiz compreender. Se quiser me responder, lerei a sua mensagem com prazer.

  • antoniofernando

    Ricardo:

    Não penso que se possa aferir a Metafísica pela Física A conversa, nesses termos, está, do meu ponto de vista, viciada à partida. Não penso, assim, que se possa provar Deus nem que não se possa provar. Aliás, que prova seria decisiva para se acreditar em Deus? E que concepção de Deus? Como provar que foi Deus quem criou o Universo? Quando Einstein sentiu que existia Deus como Criador, como terá ele chegado a essa convicção? Não terá sido por algo que lhe adveio do Sentimento Religioso? Comigo, foi isso que aconteceu, ainda muito criança. Nem sequer, nessa altura, frequentava a catequese. Gostava muito de contemplar as estrelas numa zona rural. E senti, desse modo, que Deus existia. Posso estar errado? Posso. Mas a convicção é muito forte e inabalável. Falo por mim e pelo meu conceito de Deus. Os outros crentes que falem por eles.Tal como na Física, a Metafísica também exige revisão de conceitos. Se acredito no pseudo – Deus do AT? Não, não acredito nesse déspota disfarçado de Deus. Qual é a minha concepção de Deus, quer saber? Embora aqui não seja ideologicamente correcto falar em Amor e Bondade, posso adiantar-lhe a minha concepção de Deus. Pensei na pessoa mais bondosa que conheço. E depois pensei em Deus como o Ser mais infinitamente bondoso de todos nós. Aí encontrei Deus, depois de, em criança, ter encontrado o Criador do Universo. Se necessito de aprimorar este conceito? Necessito. Se, para isso, tenho que renegar muitos postulados firmados na minha formação ex-católica? Já o fiz, Sou presentemente o que se chama um cristão desalinhado, um livre-pensador. Não me submeto a nenhuma cartilha teológica dogmática. Sinto que Deus existe. E não vejo sequer como seja filosoficamente possível acreditar em Deus de outra forma que não seja através do Sentimento. Por isso acho completamente descabida e inútil a querela à volta das provas ou não provas de Deus. O Amor existe? Os cientistas podem provar que o Amor existe? Não podem. Podem dizer que há manifestações humanas que interpretam como traduzindo Amor. Mas quem pode verdadeiramente dizer se os actos exteriores de afecto, que socialmente são visíveis, são sinceros? Há psicopatas tidos por ” muito boas pessoas” que são uns grandes trastes. Então, como é possível saber se o Amor Humano existe? Só é possível cada um de nós saber se de facto os nossos sentimentos são verdadeiros. Portanto, a Ciência só chega onde pode chegar. E onde ela não chega é ao domínio da Metafísica nem à natureza ou à veracidade do Sentimento. São áreas da Vida completamente estanques e intransponíveis. E haverá algo mais etéreo e cientificamente inexperimentável do que o Sentimento? Ou Deus?…

  • antoniofernando

    Ricardo

    Acrescento algo mais ao meu anterior comentário, pois deixei de responder directamente à sua questão, o que agora faço:de forma nenhuma acredito em Deus pela debilidade do senso comum. O que quis enfatizar nesse comentário, respondendo à sua interpelação,é que também a Ciência tem tantas falhas que, mesmo admitindo como possível que pudesse servir para aferir a validade ou invalidade da tese teísta,não vejo como pudesse ser digna de crédito para ser ela a avaliar a crença na existência de Deus. Pego no seguinte exemplo:no Evangelho, figuram várias referências aos milagres de Cristo. Você, como ateu, pode dizer:milagres são impossíveis porque contrariam a Lei da Natureza. Mas eu contraponho: você em 2010 conhece tudo àcerca da realidade da vida e das leis da natureza ? Se você não soubesse que existem dois ou três homens em todo o mundo que conseguem correr 100 m em menos de 10 segundos e se 100 milhões não conseguissem essa proeza , que diria ? Que correr 100m em menos de 10 segundos é fantasia, é lenda, porque contraria o humanamente impossível ? Se os evangelistas relataram esses eventos como verídicos, a diferença entre nós é que eu acredito que alguns seres excepcionais, como Cristo, foram capazes de produzir proezas que, aparentemente, contrariam a Lei da Natureza.Você certamente perguntará porque é que eu acredito. E eu respondo-lhe: porque acredito na Energia do Amor, levada a cabo por um ser excepcional como Jesus de Nazaré. Remato o meu esclarecimento com a seguinte revelação. Há uns anos, tive uma vivência que ultrapassa tudo o que é conhecido. Sei que foi real e verdadeira. Mas os meus familiares descreram.Quando a revelei ao meu filho, ainda criança, ele olhou-me nos olhos e disse-me imediatamente que acreditava, sem vacilar um segundo.Se lhe perguntar porque é que ele acreditou em mim, estou certo que apenas lhe diria: ” porque sinto que é verdade e não preciso de mais provas do que a palavra do meu pai…”

  • Zeca

    Já cá faltavam, uma vez mais, as comparações infantis dos sabichoso e cómico Krip.

    Gosto particularmente das confusões entre domínio de técnicas, treino e inteligência.
    ”A minha avó faz croché ao mesmo tempo que segue os diálogos da novela, conversa com a vizinha e decide o que vai fazer para o jantar, coisa que ninguém faz ideia de como por um computador a fazer.”
    O Krip é um informático muito débil. Os processadores actuais suportam todos tecnologia multitarefa, e existe uma coisa chamada CAM. Usando os periféricos adequados, um computador poderá fazer croché, ao mesmo tempo de “conversa com outros computadores ou segue a execução de uma tarefa ou de um evento diferente e ao mesmo tempo “decide” o que vai fazer a seguir.
    Até os teares mecânicos são computorizados e executam múltiplas tarefas em paralelo.

    O único apoio sólido do conhecimento baseia-se na credibilidade. Se alguém não confiar naquilo que lhe é transmitido e em quem lho transmite, dificilmente o terá como certo e fiável. De todo, se um aluno não tiver confiança naquilo que os professor lhe transmite, nunca chegará a aprender nada.
    Todo o ser pensante submete ao escrutínio da razão aquilo que aprende, aquilo que lhe transmitem, aquilo que apreende. É isso que lhe permite distinguir o verdadeiro do falso, o certo do errado.
    Ora, alguém disse ao Krip que a tarefa do filosofo é duvidar. Vai daí, ele acha que se não puser tudo em causa já não é inteligente. Nada é tão quadrado, e generalizar em absoluto é uma manifestação de debilidade intelectual.

    A avó, provavelmente, questionou aquilo que lhe ensinaram ou de que ouviu falar, muitos milhares de vezes mais do que o Krip. Acontece que amadureceu e percebeu que tudo tem um sentido lógico, coisa que os jovens púberes (na tal idade difícil) não são capazes de perceber. A avó até sabe que isso passa quando as pessoas crescem e chegam a adultas.
    Como esta avó há milhões, sem duvida! São todas aquelas pessoas que já careceram o suficiente, que ultrapassaram com sucesso a idade dos “porquês”, a idade em que tudo está errado e fora do sitio, a idade da parvalheira. Essas pessoas estão em todo os lados: na remota Mongólia, na escaldante África, na recôndita Amarica do Sul, nos gabinetes de catedráticos de todas as universidades, nos laboratórios de investigação, nos centros de pesquisa… em todos os lugares; convivendo com ao incontrolados jovens púberes

  • Zeca

    As conclusões brilhantemente absurdas do Krip, são a imagem de marca do seu anedotário.
    ”Todos sabemos que há crianças que pisam minas e ficam estropiadas, ou morrem de cancro, ou nascem com deficiências, e isso indica não haver um deus omnipotente a cuidar dos inocentes”
    Se substituísse “omnipotente” por “infinitamente bondoso”, ainda poderia gerar alguma observação a uma menta mais incauta e mais debilmente amadurecida. Assim caiu fora do lugar onde queria chegar, assim fez figura de palerma.
    Saber que um Deus omnipotente não sabe o que é melhor em cada uma destas situações e porquê ocorrem, é a forma do Krip exercer a tal “crença no que julga ser verdade, apenas porque confia, cegamente, no que lhe dizem” ou na sua construção pessoal da verdade e do rigor – construção intuitiva, pessoal e subjectiva.
    Uma inquietante manifestação de pequenez é achar que o Homem (uma ou algumas pessoas) é o centro do universo e que a sua historia pessoal é algo de visível ou notável na imensidão cósmica da Criação Divina. Se uma criança morre, é um fenómeno gigantesco para o pequeno Krip, mas um fenómeno infinitamente invisível para o universo.
    Não é necessário discutir que a seguir a um dia vem uma noite. Mas, para o Krip é necessário pôr isto em causa, para que tal sucessão seja verdade. Isso intriga-o e cria-lhe uma bijança no cérebro. Se ele não duvidar isso não pode existir , muito menos se verdade sem discussão.

    ”Eu posso apontar o porquê da minha descrença com razões que o meu interlocutor reconheça serem verdade.”
    Tal como os crentes lhe apresentam razões que são verdadeiras para a crença.
    A questão é que o Krip aceita apenas o que lhe dá jeito de acordo com o seu sistema de crenças.
    Se lhe disser: a vida apareceu na Terra porque Deus criou o universo de forma que aqui estivesse um recanto com condições para que a vida prosperasse. O Krip contrapõe logo, com seu sistema de crença activo: “ Não! Eu não acredito que Deus exista. Portanto foi o acaso que fez com que localização a Terra fosse esta e permitisse a vida!”

    O L Krip, admite um sistema de crença que seja ateísta, desde que Deus seja substituído pelo acaso.
    É um crente estapafúrdio, mas é um crente e limitado.

  • ricardodabo

    Caro Antonio Fernando, li as suas duas mensagens. O sentido geral da sua resposta me parece ser o seguinte: os instrumentos de que dispõem a ciência e a razão humanas são insuficientes para responder a questões metafísicas, como a da existência de Deus. Em consequência, você eleva o sentimento a critério de verdade. Desde que você sente que Deus existe, as provas racionais ou científicas são desnecessárias.

    Vejo, porém, um problema enorme na escolha desse critério. Os critérios de validação da verdade devem ser objetivos, universais e estar acessíveis a todos. Se eu digo que a Lua tem montanhas, devo ser capaz de provar essa afirmação segundo métodos que podem ser repetidos por outras pessoas. A subjetividade do seu critério justifica a sua crença, torna-a verdadeira para você, mas não convence aos demais. Eu, por exemplo, tenho um profundo sentimento de que Deus não existe. E aposto que outros têm sentimentos a respeito desse assunto que consideraríamos extravagantes e bizarros.

    Se a religião é um assunto de foro íntimo, posso admitir que o sentimento seja o critério de validação das crenças. Mas se ela se torna assunto de debates filosóficos, precisamos de um critério comum que nos permita analisar a questão. E neste caso o sentimento não basta.

    Há outros pontos do seu comentário que eu também poderia comentar, como a questão dos milagres. Por exemplo: se não podemos desacreditar um milagre por desconhecermos as leis da natureza na sua totalidade, por que deveriamos rubricar qualquer evento extraordinário como milagre? Se a natureza esconde leis que nunca poderemos conhecer, então nada é milagre. Tudo é uma manifestação muito comum e banal das leis da natureza. A questão do milagre perde o sentido.

    Abraços.

  • Alfredo Dinis

    Caro jovem 1983,
    Se a segunda premissa fosse evidente por si mesma, não seria necessário criar um silogismo. Mas não é. Logo, o silogismo não demonstra nem mostra nada. Não se pode pressupor na premissa, sem o demonstrar, o que aparece na conclusão, dizendo no final que se demonstrou a premissa. Não.

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • jovem1983

    Caríssimo Alfredo Dinis:

    Creio que a observação dos fenómenos religiosos contemporâneos, bem como a devida revisão da História, ambas à luz das dinâmicas culturais e sociais, evidenciam a segunda premissa, permitindo a consequente conclusão.

    Cumprimentos.

  • Alfredo Dinis

    Caro jovem 1983,
    Dizes bem “creio”. É fácil dizer que isto ou aquilo está provado. Não é porque algum discurso me convence pessoalmente que esse discurso prova objectivamente aquilo de que estou convencido, que ele objectivamente o prova. São duas coisas muito diversas. Além disso, colocar em oposição o facto de a reliigão ser uma criação cultural com o facto de ter alguma coisa a que ver com Deus é um dos grandews equívocos do ateísmo radical contemporâneo. Contrariamente ao que muitos pensam, crentes e ateus, a religião não tem que ser necessariamente concebida como tendo caído do céu, ela pode muito bem ser concebida como uma fenómeno culturalmente emergente, precisamente uma das formas possíveis pelas quais Deus se revelou à Humanidade. Esta é, por exemplo, a posição do padre Jesuíta francês Teilhard de Chardin que viveu no século passado.
    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • jovem1983

    Caríssimo Alfredo Dinis:

    Quando escrevi 'creio', adoptei uma forma de expressão cordial concernente com o trato que considero que todos merecem, mas o conteúdo do comentário refere-se a um conjunto de provas empíricas e documentais (sobretudo fontes escritas e artísticas), que o justificam.

    Distinguirá certamente que os meus discursos – tal como os seus – têm duas dimensões (independentemente de redigirmos a título individual os comentários, pois essa seria uma terceira): a manifestamente pessoal, que cerca o campo das opiniões e, sobretudo, a segunda, o substrato onde estas assentam, seu fundamento. Em ambas, evito reproduzir convicções, quer de terceiros, mas sobretudo intimistas, visto que o que discutimos é uma base mais alargada e pouco consensual, daí fomentar sempre o meu juízo pelo campo empírico, as provas.

    Se reparar escrevi precisamente que as religiões são fenómenos culturais que prevalecem unicamente através de relações sociais, dinâmicas, constantemente em tensões entre a preservação de tradições e rupturas, o que não se reflecte necessariamente em descontinuidades em todos os campos, reveja a história das religiões abraamicas ou, contemporâneamente, as derivações das igrejas Católica e Anglicana. Todos estes aspectos são verificáveis. Qualquer ideologia religiosa foi criada e desenvolvida pela humanidade que, ao contrário dos outros seres vivos, desenvolveu as suas capacidades cognitivas e os instrumentos necessários para “perpetuar” os conhecimentos progressivamente alcançados, de modo a transmitir para as gerações futuras e garantir a sua prevalência, a sua preservação, se preferir, um laivo de orientações de sobrevivência. É precisamente nesta orientação que tem sido progressivamente mantido, transformado e rebatido em diversos aspectos o vasto e diversificado campo cultural, como por exemplo no campo dos fenómenos celestes ou da medicina, onde os povos antigos não tinham a devida explicação ou saber, e que nós acrescentamos conhecimento crucial ao nosso actual modo de vida, é precisamente neste quadro que o debate entre crentes e descrentes se encerra e desenvolve. Todas as interrogações, afirmações e infirmações, que se discutem é à luz de toda a cultura produzida pela humanidade.

    Contrariamente ao que muitos pensam, muitos sabem distinguir a dimensão que apontei anteriormente, assente em conhecimento, verificável, concreto, objectivo, daquele que não tem essa base e que enunciou “o caído do céu”, isto é a oposição das religiões enquanto produtos culturais e a suposta existência de um ou mais entidades supra-naturais A existir qualquer entidade ou entidades próximas à ideia do demiurgo, essa(s) existe(m) sem qualquer prova de manifestação, apenas em convicções e orientações que prevalecem através de dinâmicas culturais e sociais próprias das sociedades ao longo da História.

    Cumprimentos.

  • alfredo dinis

    Caro jovem 1983,
    Obrigado pelos seus esclarecimentos. Enquanto crente, não me identifico com a imagem da religião que tem. Espero que tenha ficado claro que um crente não tem que pensar necessariamente que a religião “caíu do céu”, uma perspectiva que, se bem o entendi, atribui a todas as religiões e a todos os crentes.

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • jovem1983

    Caríssimo Alfredo Dinis:

    Com gosto pretendi esclarecer alguns aspectos que não poderiam ficar devidamente esclarecidos anteriormente através deste tipo de comunicação impessoal e limitada, onde é um desafio exprimir as nossas ideias.

    Devo à partida respeito a todas as pessoas, e com gosto àquelas cujo trato é manifestamente cordial, e compreenderá certamente que a imagem que transmiti da religião não foi de modo com o objectivo de sugestionar qualquer tipo de clivagens. Compreendo a complexidade das relações sociais e culturais, e nestas as diferentes percepções que se discutem.

    Cumprimentos.

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