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A história de uma visita papal

Num bairro de 44 hectares habitava um cardeal que a idade e o múnus tornaram casto. Na adolescência passou pela juventude hitleriana onde a disciplina o moldou.

Despida a farda, perdida a guerra, vestiu a sotaina onde não faltaram adereços com que a hierarquia o foi adornando. João Paulo II, papa polaco, viu nele o bispo ideal para lhe guiar a Prefeitura da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (ex-santo Ofício).

A idade canónica para a resignação (75 anos) não o removeu das funções. Com o prazo de validade excedido o Papa nomeou-o Decano do Colégio Cardinalício, quiçá grato pela preparação do Catecismo da Igreja Católica de que o havia encarregado.

Foi esse Decano que ascenderia a papa perante o desmazelo do Espírito Santo e o olhar atento do Opus Dei. Mal sonhava que a ocultação dos crimes de alguns padres lhe cairia como nódoa indelével na brancura dos paramentos e o travaria  na pressa beatificadora dos antecessores, igualmente manchados pelo encobrimento. Hoje, uma confissão bem feita já não é benzina capaz de desencardir tal nódoa, por mais sincero que seja o arrependimento e a promessa de não mais pecar.

Foi neste vendaval de vergonha, sob pressão da comunicação social de todo o mundo, que o recandidato a PR de um país ansioso por romarias e tolerâncias de ponto convidou o Papa infamado.

São duas caras que não inspiram paixões mas atraem cúmplices, não induzem simpatia mas fazem confluir interesses, não se comportam como deviam mas são reverenciados pelas funções. Foi assim que a recandidato Cavaco convidou o futuro santo e actual regedor do Vaticano.

Em Lisboa, o Papa Ratzinger elogiou o cardeal Cerejeira, cúmplice da ditadura fascista e da guerra colonial; no Porto olvidou o bispo Ferreira Gomes que, por honradez, sofreu 10 anos de exílio, mas nem o Papa nem o anfitrião alguma vez se distinguiram no amor à democracia.

O País viajou de joelhos, os ministérios pareceram sacristias, a família presidencial deu o exemplo aos mordomos das festas sacras e até os cadetes militares fizeram uma pausa na carreira das armas, transportando o andor da senhora de Fátima, para mostrarem  que a glória militar não se compara com a de carregadores de padiolas pias.

Finalmente, o PR promulgou a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com a raiva de quem não tem alternativa e a azia de uma decisão amarga.

Esperemos que o país volte ao normal, que não é bom, depois dos dias de Papa, em que foi pior.

5 thoughts on “A história de uma visita papal”

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  • sxzoeyjbrhg

    OFF-TOPIC:

    Só para dar conta, a quem estiver interessado, deste canal no Youtube de um ex-padre católico e que agora é ateu e fala da sua experiência anterior:

    http://www.youtube.com/user/edwardtarte

    Cheguei ao conhecimento desse canal a partir de um “mirror” deste vídeo postado noutro canal que faz parte da minha lista de subscrições:

    Edward Tarte, former catholic priest, speaks about the sacraments

    http://www.youtube.com/watch?v=tBagEpYUsoA

  • Joe

    “Em Lisboa, o Papa Ratzinger elogiou o cardeal Cerejeira, cúmplice da ditadura fascista e da guerra colonial; no Porto olvidou o bispo Ferreira Gomes que, por honradez, sofreu 10 anos de exílio, mas nem o Papa nem o anfitrião alguma vez se distinguiram no amor à democracia.”

    Sei o motivo…. do papa elogiar Cerejeira… ele nunca foi severamente atacado pela grande midia…. ao contrario dos pastores evangelicos, dos líderes islamicos … em suma… Cerejeira virou “santo”… e “ponto final”… (e Salazar?? ele não é demonizado como Hitler, Stalin etc.) (alias… Hitler foi o “unico” diabo da 2ª guerra e da Europa nazifascista…. a midia praticamente se esquece dos crimes dos outros membros do Eixo !)…
    bispo dom Antonio sofreu exilio ? Sim… o papa tambem ignora os padres e bispos assassinados pelas ditaduras latinoamericanas(conluiadas com o papado!)!! o papado só considerou o primaz salvadorenho Oscar Romero mártir por causa de pressões. Mas o papa jamais condenou duramente os assassinos dele… tampouco a ditadura salvadorenha…. como costuma fazer com os regimes comunistas…. Se Romero fosse morto por algum governo comunista ou islamico … aí ele viraria mártir no ato!

  • Joe

    Outra coisa… a igreja declarou “mártir” o arcebispo nazi-ustasha Stepinac, no intuito de limpar o seu paSSado. Ah, claro… falou diabos do governo iugoslavo etc. mas curiosamente o mesmo vaticano não fez o mesmo teatrinho quando o monsenhor Tiso foi julgado e executado pela autoridades checoslovacas?? Motivo: Tiso foi preso por soldados dos EUA e o governo de Praga não era comunista ainda (presidente era Benes)…. e sem falar que Tiso tinha sido presidente (algo bem explicito)

  • jovem1983

    Caríssimo sxzoeyjbrhg:

    Obrigado pela sugestão para visionar este exemplo de coragem.

    Cumprimentos.

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