Loading
  • 2 de Abril, 2010
  • Por Carlos Esperança
  • Literatura

Homem armadilha de deus armadilha de Homem (Crónica)

Por
Sílvia Alves

– E tu quem és?
– Eu sou filho de deus.
– Mau!
– Sou! E estou cansado de ser. Cansado das dúvidas, das gargalhadas, de levar com a porta na cara!
– Meu filho, a fé é uma coisa extraordinária mas nem sempre funciona: uns têm, outros fingem, uns vêem caminho outros vão atrás. Enganam-se uns aos outros, sempre pude contar com esses. Só não contei que tu crescesses, que tu próprio duvidasses e que a tua mãe se fartasse destes dois mil anos de sombra. Ela era feliz com esta história de nasceres em cada Dezembro, ser virgem, mãe…
– A chorar a minha morte em cada Primavera. Feliz? Condenada. Felizmente, desde que lhe enviaste o Gabriel, sabe mais de anjos que tu próprio. E achas que a minha vocação é o teatro? Figurante nu, numas palhas? Ainda hoje tenho alergia. E o suplício de, tímido como sou, andar por aí a falar com toda a gente. E a farsa da morte, julgas que não dói? Sinto dores nas mãos e nos pés, ao ver-me pregado em cruzes por todo o lado. Estou farto!
– A morte são apenas três dias.
– Pai, estou farto das tuas alucinações! Com a idade podias ter juízo.
– Desistir, queres tu dizer? Depois de todo o trabalho que tive? Não foram apenas sete dias da estreia, foi uma eternidade a pensar a encenação! Meu filho, porque me abandonas?
– Porque posso. Vou tomar uma mulher, levá-la ao céu como se não houvesse deus neste mundo nem no outro, apenas homens e mulheres.
– Não podes levar pecado para o céu.
– Não há céu sem pecado. Tu sabes isso melhor que ninguém.
– Achas que eles estão a gostar da peça?
– Sei lá, estão tão calados…
– Estes assuntos da religião são muito delicados.
– Está muito escuro. Aqui deste lado não se vê nada.
– Não me convém acender mais luzes, resulta melhor na penumbra.
– Qual é a próxima peça?
– É a mesma, só mudam os actores.
– Devias fazer algo novo.
– Então, tu dizes ser filho de deus?
– Serei, mas já nem eu tenho fé!
– Eu acredito em ti.
– E tu quem és?
– Eu sou deus.
– Mau!
– Sou! E estou cansado de ser. Cansado das dúvidas…

10 thoughts on “Homem armadilha de deus armadilha de Homem (Crónica)”

    Pingback: Tweets that mention Homem armadilha de deus armadilha de Homem (Crónica) :: Diário Ateísta -- Topsy.com

  • ricardodabo
  • Carlos Esperança

    Um belo texto que honra a gramática e areja as ideias. Uma prenda da jornalista Sílvia Alves aos leitores do Diário Ateísta.

  • jsousa

    óptimo texto!… muito bom.

  • JoseMoreira

    Ricardodabo
    peço desculpa, mas o simpático povo brasileiro não é referência para ninguém, em termos religiosos. Eu sei que estão a brincar, quando dizem que “Deus é brasileiro”; mas tenho a certeza de que há muito brasileiro que acredita mesmo.

  • ricardodabo

    Caro José Moreira,

    o Brasil é o maior país católico do mundo, o que, creio, torna relevante o resultado da pesquisa. Não digo isso por estar ofendido com o seu comentário. O Brasil é mesmo um lixo. Mas essa é outra questão.

  • ricardodabo

    Ah, e deixe dessa condescendência de dizer que o povo brasileiro é simpático. “Simpático” é o que as mulheres dizem do homem com quem elas não querem ter um relacionamento.

    Não há nada de simpático no povo brasileiro. Ele é iletrado, alienado, preguiçoso e com uma comovente necessidade de negar o que lhe está diante das fuças. A coisa mais horrorosa que vi até hoje foi a morte de um menino chamado João Hélio. A família de João Hélio voltava de um centro espírita quando o carro em que eles estavam foi abordado por uma horda de marginais. A mãe e a filha saíram do carro, mas o menino, ao tentar sair, ficou preso pela barriga ao cinto de segurança. Os bandidos deveriam tê-lo solto antes de arrancar, mas em vez disso preferiram arrastar o menino pelas ruas do Rio de Janeiro (a “cidade maravilhosa”) por sete quilômetros. Alguns dias depois, estreou nos cinemas do país um filme boboca chamado “Turistas”, que retratava o Brasil como um lugar violento e impróprio para visitantes. Sabe qual foi a reação que o filme despertou por aqui? Repúdio, protesto, indignação. Em vez de reconhecermos que o filme tinha sido fiel à realidade, preferimos fingir que não era conosco.

  • hotair134

    obrigado
    Sílvia Alves

  • Abraão

    Simplesmente bom!

  • Emiliagovas

    “Estes assuntos da religião são muito delicados,”como diz a própria autora do texto.Li um artigo de Natasha Romanzoti que diz:”Sem querer julgar as crenças que existem pelo mundo todo, certas religiões vão além do estranho quando se trata de fé. Ainda assim, nenhuma crença que se preze é completamente “normal”; todas se baseiam em idéias e fundamentos que geralmente  não tem explicação lógica.”
    Acredito que toda troca de idéias e pontos de vistas quando são saudáveis são válidas entre ateus e religiosos…Mesmo sendo católica, gosto de ler e as conclusões no final são minhas.Cada um acredita naquilo que quer, embora a ciência está aí para nos mostrar e até provar coisas que parecem impossíveis.
    Um abraço Abraão!

You must be logged in to post a comment.