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Dois pesos e duas medidas

Carl Sagan, no seu livro «Um mundo infestado de demónios», lembra-nos que o abade Richalmus escreveu um tratado sobre os demónios, por volta de 1270. Os sedutores demoníacos de mulheres chamavam-se íncubos e os de homens, súcubos. Santo Agostinho acreditava que as bruxas eram o produto dessas uniões proibidas tal como a maioria das pessoas da antiguidade clássica ou da Idade Média.

Compreendem-se hoje as freiras que, num estado de confusão, viam semelhanças entre o íncubo e o padre confessor ou o bispo e que ao acordarem se sentissem conspurcadas como se se tivessem misturado com um homem, como escreveu um cronista do século XV (pág.126, ob. citada).

A fé e a superstição confundem-se. Ainda hoje vemos crentes que rumam a Fátima e à santa da Ladeira e quem promete a bilha de azeite ao santo e não dispensa conselhos da bruxa quando a adversidade lhes bate à porta.

Esta é a parte inofensiva da fé, pelo menos para os não crentes. Os únicos prejudicados são os crédulos que esportulam o óbolo sem qualquer benefício. O mesmo não se pode dizer do proselitismo e das perseguições aos que recusam partilhar a mesma fé.

Dir-se-á que hoje ninguém é molestado por comer carne de porco, por trabalhar nos dias santos ou por desprezar os sacramentos, mas isso só acontece onde foi contido o clero. É uma conquista contra o poder eclesiástico e não um direito outorgado pelas religiões. A lei seca dos EUA teve origem no radicalismo religioso  [fruto do esforço conjunto da União Feminina da Temperança Cristã e das pressões de certas associações missionárias protestantes]. O porco continua o animal imundo para judeus ortodoxos e muçulmanos, escravos de um deus que está com o olho neles a cheirar o bafo e a vigiar os hábitos alimentares, a forma de vestir e a frequência das rezas para decidir o que lhes reserva:  as penas perpétuas ou o Paraíso.

Não se aceitam crenças diferentes sobre higiene básica, epidemiologia e alfabetização e, no entanto, apesar da ligação directa entre as crenças e a acção, aturam-se crenças que apelam à violência, ao racismo e ao genocídio em nome da tolerância religiosa e/ou do multiculturalismo.

Enfim, dois pesos e duas medidas para as crenças religiosas e para as políticas, ambas com efeitos directos sobre os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Proíbe-se o incitamento ao ódio, a xenofobia, a discriminação de género, a mutilação e muitas outras barbaridades excepto quando praticadas sob os auspícios da fé.

19 thoughts on “Dois pesos e duas medidas”
  • pedro

    -|- -|-
    M MA

    Pois é Carlos Esperança mas parece que 3 pastorzinhos estavam lá e alguem disse que que era agora e não é mesmo que deu-se mesmo fenomeno do sol naquele momento?

  • Joe

    multiculturalismo= decadencia

  • Bill

    Os judeus e islamicos não comem carne de porco porque não são canibais

  • filipe

    Enquanto Católico noto que existe algo neste texo que é verdadeiro!

    “A fé e a superstição confundem-se. (…) e não dispensa conselhos da bruxa quando a adversidade lhes bate à porta.”

    mas, na verdade, a fé e a superstição confudem-se para quem não tem uma fé (Católica nesta caso) esclarecida. O que acontece a muita gente que se diz catolica, é no momento da aflição recorrer a qualquer coisa. essas pessoas não tem na verdade uma fé eclarecida e verdadeira! Infelizmente a Igreja Católica tem alguma culpa nisto.

    Um pequeno texto que retirei de um outro site.

    “Apesar de toda essa prova extraordinária do amor de Deus por nós, muitos batizados renegam essa fé e vão buscar a salvação onde ela não existe. Abandonando o verdadeiro e único Salvador, e a verdadeira e única Igreja, vão buscar refúgio espiritual em tudo que é abominável a Deus, como nos ensina a Bíblia: ´adivinhação, astrologia, agouros, feiticismo, magia, espiritismo, superstições, evocação dos mortos´ (Deut 18,10´13). A essa lista do Deuteronômio podemos acrescentar hoje uma série de outras práticas que negam a salvação pela morte e Ressurreição de Jesus, e a trocam por uma série de outras práticas esotéricas: horóscopos, necromancia, quiromancia, búzios, pirâmides, cristais, tarô, superstições, crenças em gnomos, duendes, mapa astral, numerologia, Nova Era, etc…

    Isto nega a fé cristã, ofende a Deus, é culto idolátrico. O cristão que faz uso dessas práticas trai a sua fé, abandona Jesus Cristo, despreza a sua santa Cruz, as suas santas chagas, os seus méritos e o seu imenso amor por nós. É verdade que muitos o fazem por ignorância…Mas já é hora de acordar desse sono de morte!”

  • Baal

    É engraçado que faças essa critíca à superstição enquanto apresentas a religião católica como exactamente o oposto.

    Bem, diz-me lá, quando evocas um santo não estás a evocar um morto ?

    Vocês falam com os santos (mortos) evocam os santos (mortos), pedem a proteção dos santos (dos mortos) e depois vêem calmamente dizer que a evocação dos mortos é uma superstição. 🙂 Obrigado, já sabíamos disso, mas é uma superstição em TODOS os casos e não apenas quando se trata de outras tradições que não a vossa.

    O mesmo quando alguém considera uma superstição ridícula acreditar em duendes mas já acha muito natural acreditar em legiões de anjos, demónios, querubins, serafins, tronos e potências.

    As provas que existem para acreditar em duendes são as mesmas que existem para acreditar num arcanjo – NENHUMAS.

    Por outro lado o vosso deus tripartido vale o mesmo respeito que qualquer outro deus de qualquer outra religião.

    Pelo que vocês podem falar à vontade com essa gente sobrenatural e acusar de supersticioso quem acredite em coisas semelhantes de outras tradições. Para quem esteja de fora a superstição é a mesma.

  • Baal

    “não é mesmo que deu-se mesmo fenomeno do sol naquele momento?”

    Mais milagroso ainda é que só uma multidão de fanáticos supersticiosos em estado de histeria colectiva tenha visto o Sol “dançar” no céu.

    A alguns metros dqquela multidão hiperexitada ninguém viu nada. No resto do mundo ninguém viu nada.

    Se o Sol realmente se tivesse movido não era inevitável que tivesse sido visto em todo o mundo ?

    O testemunho de uma multidão de fanático excitados vale exactamente o mesmo que o testemunho de uma multidão de fanáticos excitados em qualquer parte do mundo.

    A igreja universal apresenta diariamente milhares de “testemunhos” de curas milagrosas que são feitas à frentes de multidões ululantes. Levar testemunhos desses a sério diz tudo acerca da maturidade psicológica da pessoa que o faz…

  • Baal

    Ah ! Portanto já sabem, acreditar no poder de uma pirãmide é superstição.

    O poder do terço ou de uma reliquía é que já não é… 🙂

  • Carlos Esperança

    Também é proibida aos cristão pelo Deuteronómio mas o racismo, como se vê, é comum aos três monoteísmos. Lamentável.

  • filipe

    Um teço , uma imagem “per si” não tem qualquer poder

    S. Tomás de Aquino defendia o uso das imagens, afirmando: “O culto da religião não se dirige às imagens em si como realidades, mas as considera em seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a realidade da qual é imagem“

  • filipe

    A Igreja aceita a invocação dos santos (orações humildes dirigidas aos justos do céu para que intercedam por nós), mas não aceita a evocação dos mortos (pratica ritual que julga obter respostas e mensagens dos mortos).

  • Baal

    Olá filipe,

    Ok, é completamente diferente.

    A igreja não aceita que se façam rituais para obter respostas dos mortos, mas aceita invocar os santos, que são mortos, esperando que intercedam por nós !!!!!!!!

    Ora, se se espera que intercedam por nós é porque se espera uma RESPOSTA em troca da invocação, porque se não respondessem não intercediam.

    Isto é, a interceção sem si mesma é uma RESPOSTA dos mortos à invocação.

    Ou seja, em relação à necromância dos charlatâes de feira trata-se apenas de uma diferença de ritual. O crente, tal como o necromante, FALA COM O MORTO e espera uma RESPOSTA, a interceção pedida.

    Se por acaso a vida lhe correr bem e obter o que pediu ao MORTO, fica convencidissímo de que O MORTO O OUVIU E LHE RESPONDEU intercedendo junto de outra entidade sobrenatural para que o pedido fosse diferido.

    Ou seja, a única diferença em relação a outras superstições e religiões, como a crença nos duendes ou no Voodu é que, por acaso é NESTA que tu acreditas.

    De resto não se vê qualquer diferença lógica em relação ás outras crenças e superstições, estão no mesmo campo. Apenas se notam diferenças rituais e mitológicas.

    Mas claro que para ti não tem nada a ver – porque é a TUA crença.

    Grande diferença sim senhor.

  • Baal

    Também na magia não são as imagens que têm poder. As imagens são símbolos da realidade que representam e permitem ao crente fazer a ponte para o sagrado, que pode habitar a imagem mas não é a imagem, assim como a relíquia de um santo pode potenciar o fervor da fé de quem reza, também uma imagem mágica pode potenciar a ligação aos poderes sobrenaturais de pratica o ritual mágico. Exactamente como o ritual cristão. A imagem, o ritual faz a ligação com o sagrado seja no cristianismo seja na bruxaria. Uma imagem de satan, para o satanista, não é satan, apenas “o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a realidade que é a imagem”.

    Embora a ligação à imagem e ao símbolo possa ser extremo, quer no caso em que os crentes antigos juntavam duas estátuas de deuses para acasalarem, quer no caso em que os cristãos é suposto acreditarem que o pão e o vinho da missa são mesmo a carne e o sangue de cristo.

    Isto é comum a todos os rituais, religiões e superstições.

    Mais uma vez a única “grande” diferença é que uma delas é a tua.

  • josecamoreira

    O que tem a ver a carne de porco com o canibalismo? Se é que se pode saber… A não ser que consideres o porco como um da tua espécie…

  • Carlos Esperança

    Quando as pessoas não acreditam nos milagres (se a Igreja tiver força) pagam com a vida. O pogrom de 1508 matou 3000 judeus em Lisboa, espancados, mutilados e queimados,

  • jsousa

    olha lá!… essa do canibalismo é de muito mau gosto.

  • Joe

    “Quando as pessoas não acreditam nos milagres (se a Igreja tiver força) pagam com a vida. O pogrom de 1508 matou 3000 judeus em Lisboa, espancados, mutilados e queimados,”

    Nem falo dos pogroms promovidos por pe. Jozef Tiso, Ante Pavelic, Ngo Dinh Diem….

  • filipe

    Baal, podemos invocá-los, e eles podem ouvir as nossas preces. Como? Os Santos não são oniscientes e nem onipresentes, mas no Céu todos os seus desejos razoáveis são satisfeitos pelo poder de Deus. Eles são amigos de Deus, que pela sua santidade os fez “participantes da sua natureza divina”. O Santo intercede diante de Deus, mas é Ele quem faz o milagre.

  • Baal

    Obrigado pela esclarecimento dos pormenores mitológicos que estamos fartos de conhecer.

    Entretanto, no meio de tanta simpatia pedagógica estás apenas a fugir à questão.

    Para que os MORTOS a quem tu FALASTE pedindo a interceção vão FALAR COM OUTRA ENTIDADE SOBRENATURAL APESAR DE ESTAREM MORTOS, é preciso que esses MORTOS TE TENHAM OUVIDO E TE RESPONDAM FALANDO COM A TAL OUTRA ENTIDADE SOBRENATURAL.

    O que está aqui em causa é que vocês fartam-se de falar com os mortos e eles fartam-se de vos responder, ter colóquios com outras entidades etc.

    Isto não só é contra o que vem na bíblia como é IGUALZINHO a qualquer sessão de necromancia. A única diferença é de estilo, ritual e mitológica, mas o princípio é exactamente o mesmo.

    A treta de que aqui é Deus que faz tudo não passa de um pormenor mitológico. Porque tu falas com o morto, o morto ouve-te e responde-te indo pedir a deus. Além disso a maior parte das outras superstições que acreditam em falar com mortos também admitem outras entidades sobrenaturais, como deus ou o diabo, sendo muita vezes o morto apenas um intercedor junto de entidades maiores, pelo que até a diferença de pormenor nem sequer é muito grande.

    Mais uma vez a única grande diferença de fundo é que esta é a supertição de que TU gostas. por isso é melhor que as outras.

    Granda diferença.

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