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«Deus» é uma questão estética?

O Alfredo Dinis, como anunciara, resolveu dedicar-se aos «Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo». O que é de saudar.

Comete um equívoco de base quando caracteriza a posição ateísta de uma forma em que muitos de nós não se revêem:

  • «Se uma afirmação é digna de crédito, então ela pode ser formulada como uma hipótese empiricamente testável pela metodologia científica. A existência de Deus não é formulável como uma hipótese empiricamente testável pela metodologia científica. Logo, a afirmação da existência de Deus não é digna de crédito».

O ateu que há em mim não se revê em nenhuma das duas premissas, embora concorde com a conclusão.

Mas a segunda premissa é a que me interessa mais refutar (embora seja totalmente ignorada no texto que refiro).

Anti-premissa#2: a existência de deuses é formulável como uma hipótese empiricamente testável pela metodologia científica. É necessário é saber de que deuses estamos a falar. Porque os cristãos (e outros) supostamente acreditam num «Deus» interventor no nosso mundo, e portanto passível de ser observado pela ciência, como «um campo gravitacional ou uma galáxia». Exemplos: um «Deus» que opera uma ressurreição; um «Deus» que faz parar a Terra; um «Deus» que criou o universo; um «Deus» que criou a espécie humana (tendo ou não criado o universo). Se em cada um destes exemplos «Deus» é uma entidade auto-consciente e interventora no universo em que existimos, as acções referidas são comprovadamente falsas porque impossíveis. Refutar as acções não é refutar a entidade em si, claro: pode existir sem actuar. Mas, nesse caso, não teria relação com o «Deus» dos mitos judeo-cristãos.

O que nos leva à primeira premissa.

Anti-premissa#1: há afirmações dignas de crédito que não podem, por enquanto ou talvez não, ser formuladas como hipóteses empiricamente testáveis. Aqui, é necessário saber muito bem de que afirmações estamos a falar. O Alfredo passa boa parte do seu texto a argumentar que há experiências fora do âmbito da ciência. Por exemplo, experiências estéticas (a arte…) ou afectivas (o amor filial) e… o «testemunho» dos primeiros cristãos. Devo confessar que não estou convencido de que a ciência não possa, um dia, explicar porque preferimos certos padrões estéticos ou cromáticos a outros, ou porque nos sentimos mais atraídos por umas pessoas e não por outras. A ciência já explicou muita coisa que parecia incompreensível ou fora do seu âmbito. Até explica como é possível que algumas pessoas delirem e vejam pessoas que não existem, ou «testemunhem» fenómenos impossíveis.

E sim, é verdade que nos conduzimos, em grande parte das nossas decisões diárias, por decisões emocionais que nada têm de científico. Tomar uma limonada em vez de uma sumo de laranja. Ou ler isto e não aquilo. Mas também é verdade que tentamos tomar decisões baseados em expectativas realistas, e não em impossibilidades. E, se em muitos aspectos da nossa vida confiamos nas informações e conselhos de outros, geralmente perdemos a confiança nesses outros quando descobrimos que fomos enganados, deliberadamente ou não.

Concluindo com o «testemunho» dos cristãos: um facto cientificamente refutável, se for transmitido por pessoas bem intencionadas durante milénios, não se torna mais credível (mas retira credibilidade a quem o repete). E mesmo que todos os cristãos da História tivessem sido pessoas bondosas (e não foram, embora isso agora não venha ao caso), a «ressurreição» não se torna mais possível.

42 thoughts on “«Deus» é uma questão estética?”
  • ricardodabo

    Isso vai ficar longo, lamento.

    Que a razão não pode tudo, isso é evidente. Minha razão não pode, por exemplo, responder se existe vida inteligente fora da terra, devido a escassez de dados. As evidências de visita extraterrestre ao nosso planeta são quase todas fraudulentas, o que nos inclina ao ceticismo, mas a extensão do universo e a nossa ignorância sobre ele nos inclinam para o outro lado. Sem poder decidir, peço auxilio à minha intuição ou à minha imaginação.

    Nós, ateus, concebemos outros caminhos para se chegar à verdade além da razão, mas só fazemos isso quando a razão nada tem a dizer. Quando a razão estabelece uma verdade, os caminhos alternativos tornam-se inúteis. Se minha razão diz que é a Terra que gira sobre o Sol, eu não consulto a minha intuição para saber o que ela “pensa” sobre isto. O que a razão estabelece é, de alguma forma, inviolável, sagrado.

    O método dos religiosos é diferente. Eles inventam outros caminhos para se chegar à verdade, entre os quais o principal é a fé. No entanto, a fé não apenas se limita a atuar naqueles espaços vazios deixados pela razão. A fé se arroga o direito de afrontá-la. Se a razão do homem religioso lhe diz que nenhum homem pode ressuscitar, logo ele pede o auxílio da fé para poder acreditar no contrário.

    Intuição e razão são coisas que se somam, se complementam. Fé e razão, ao contrário, se eliminam. A intuição é o que está além da razão. A fé é o que está em conflito com ela.

    O Alfredo Diniz, como todo homem religioso, parece não entender que a insuficiência da razão não é prova da sua inutilidade. Não é porque a razão não pode tudo que ela não pode nada. Ele começa, como é típico de seus colegas, apontando as insuficiências do método científico, utilizando argumentos que transitam entre a boçalidade e o cômico: “Não tenho nenhuma prova científica de que a minha mãe me amou desde que fui concebido no seu seio”. Etc.

    Depois reivindica um caminho alternativo para se chegar à verdade, que, espantosamente, não é a fé, mas o que ele chama de “testemunho” e que não parece ser outra coisa senão uma nova terminologia para o surrado argumento da autoridade da Bíblia. De qualque rmodo, o testemunho a que o Diniz apela não é um complemento da razão, mas um substituto dela, assim como a fé. O testemunho dos primeiros cristãos baseado nas “experiências factuais dos contemporâneos de Cristo” autoriza-o a acreditar na veracidade de todas as fábulas dos Evangelhos.

    Que seja a fé ou o testemunho, isso pouco importa, quando persiste o hábito de afrontar a razão.

  • António Parente

    Mau post. Muito mau mesmo. Vou ser se tenho tempo de voltar aqui para comentar.

  • alfredodinis

    Caro Ricardo,

    Obrigado pelo seu comentário.
    Responda-me a duas perguntas:
    Primeira: considera que a razão está apenas do lado dos crentes, enquanto que o afrontamento da razão está apenas do lado dos crentes?
    Segunda: em que aspectos considera que a Fé afronta a razão?
    Obrigado.
    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • Nuno Leal

    “E sim, é verdade que nos conduzimos, em grande parte das nossas decisões diárias, por decisões emocionais que nada têm de científico.”

    Discordo.

    Haverá algo mais cientifico que o inconsciente (=emoções nesse sentido)?
    O nosso cérebro trabalha, a um nível básico, como um computador em sistema binário. São os milhões de operações por segundo que fazem do produto cerebral, acções complexas. No entanto, se possuíssemos um computador suficientemente avançado que fosse capaz de mimetizar todo o processamento cerebral e correlaciona-lo com a memória (sensível imediata e a longo prazo), estou convicto de que produziria decisões iguais à do órgão biológico.

    Assim, apesar das decisões emocionais serem, de certa forma, inconscientes, elas são fruto de um processo demonstrável cientificamente.

  • Nuno Leal

    Caro Ludwig

    Gostei do texto do Ricardo Alves. Não gostei do seu. O Ricardo Alves centrou-se nas ideias tal como o fez o Alfredo Dinis. O Ludwig não foi capaz de resistir a algumas alfinetadas perfeitamente evitáveis.

  • Nuno Leal

    De António Parente no Ktreta
    “Caro Ludwig

    Gostei do texto do Ricardo Alves. Não gostei do seu. O Ricardo Alves centrou-se nas ideias tal como o fez o Alfredo Dinis. O Ludwig não foi capaz de resistir a algumas alfinetadas perfeitamente evitáveis.”

    Desculpe lá mas começa a soar um pouco a esquizofrenia… Então gosta mas é mau?

  • ricardodabo

    Caro Alfredo, é mais fácil perceber certas coisas do que dar uma definição sobre elas. Não temos dificuldade em saber quando alguém está amando, mas se nos perguntam o que é o amor, aí a coisa se complica. Vou lhe dizer o que penso ser afrontar a razão, mas já adianto que minha definição não é precisa.

    Afrontamos a razão quando fazemos afirmações que são contrárias ao saber estabelecido. Por exemplo, sabendo como se dá o processo reprodutivo em seres humanos, afronta a razão quem diz que há dois mil anos uma mulher virgem pôde engravidar. Sabendo que a água é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, afronta a razão quem afirma que ela é composta de rádio e hélio.

    Mas essa definição possui falhas. Difícil não se lembrar do que aconteceu na transição do geocentrismo para o heliocentrismo. Quando Galileu afirmou que a Terra girava em torno do Sol, ele estava desafiando o saber estabelecido de seu tempo. É possível que a maior parte do que sabemos hoje seja o resultado de atos de desafio semelhantes.

    Como distinguir então se aquilo que contraria o saber estabelecido é uma revolução no pensamento ou uma mera demonstração de insanidade? Não me parece ser uma pergunta fácil.

    Uma possível resposta seria o método. Galileu defendeu uma teoria nova, mas o fez submetendo os dados colhidos em observações ao escrutínio da razão. Os cristão, por outro lado, acreditam que Jesus ressuscitou, mas não apresentam nenhum argumento racional, nem qualquer evidência para justificar essa espantosa afirmação. Ao contrário, recorrem à fé para se eximir das provas.

    Neste caso, eu poderia acrescentar à minha definição o método. Afrontar a razão é afirmar coisas contrárias ao saber estabelecido sem utilizar outros meios para isso que não a própria razão.

    Mas me parece que isso ainda deixa falhas… Façamos assim: vou pensar no assunto e, quando tiver uma resposta melhor, entro em contato. Isso não dispensa você de pensar no assunto também. Afinal de contas, você, como cristão, sabe que os mulçumanos afrontam a razão quando dizem que o anjo Gabriel ditou o Corão a Maomé.

    Saudações.

  • alfredodinis

    Caro Ricardo,
    Obrigado pela sua interessante resposta.
    Os discípulos de Cristo deixaram-nos o testemunho de que tiveram a experiência de se encontrarem com Jesus ressuscitado. Por que razão não devo acreditar que disseram a verdade? Talvez a ideia de ressurreição que repugna à maior parte das pessoas – a reanimação do corpo morto – esteja longe do que pensam os cristãos que aconteceu a Jesus.

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • ricardodabo

    Caro Afredo Diniz, você me pergunta por que razões deveria duvidar do testemunho dos cristãos que encontraram Cristo ressuscitado. Eu não quero convertê-lo, mas vou responder o que você pergunta.

    Conheço alguns livros que foram escritos mais ou menos na época
    em que Cristo viveu, e todos eles são muito fantasiosos. Nas vidas paralelas, no texto dedicado ao Alexandre, o Grande, Plutarco diz que o pai de Alexandre, Filipe, deixou de se interessar por Olimpia porque a viu deitada com Júpiter. Júpiter, no entanto, estava disfarçado em serpente.

    A vida dos doze césares, do Suetonio, segue mais ou menos nessa linha. O nascimento e a morte de cada um dos césares é quase sempre anunciado por um presságio, e alguns deles praticam atos extraordinários. Consta que Otávio Augusto estava um dia comendo, se não me engano, um pedaço de um pão. Uma águia passou e pegou o pão de sua mão. Vendo que havia roubado o próprio césar, ela gentilmente resolveu devolver o pão a ele.

    Num texto chamado Deus e os homens, Voltaire cita algumas passagens hilariantes da obra do Flavio Josefo, todas muito fantasiosas.

    Eu suponho que você não acredita em todas essas coisas.

  • antonioparente

    Nuno Leal

    Desonestidade não, por favor…

    O comentário que reproduz está no blogue do Ludwig num post antigo e refere-se também a um texto também antigo do Ricardo Alves.

    O comentário que registei ontem no Ktreta diz o seguinte:

    António Parente disse…
    Mau post. Muito mau mesmo e desta vez o do Ricardo Alves ficou ao mesmo nível. Fiquei muito desiludido.

    05/01/10 19:37

    Peço-lhe o favor de não tornar a repetir a “gracinha” e a não ser mal educado.

    Procure analisar as incongruências do que escreveu no seu comentário há umas horas atrás. Desenvolver o espírito crítico sobre as próprias ideias é um exercício muito bom. Exercite-se.

  • Ricardo Alves

    Caro António Parente,
    não deixa de ser curioso que tenha tido tempo para voltar a comentar, mas não para explicar porque é tão mau o post. 😉

  • alfredodinis

    Caro Ricardo,
    Como se costuma dizer, pelos frutos se conhece a árvore. O cristianismo não é uma história para crianças nem um relato mitológico, como se vê pela sua história. É certamente uma história de luzes e sombras. Os não crentes preferem sublinhar apenas as sombras, os horrores cometidos em nome do cristianismo para concluírem que o crisitianismo é horrível. É uma argumentação falaciosa porque considera apenas uma parte como se fosse o todo. Não se pode portanto colocar ao mesmo nível todos os textos antigos, independentemente do contexto em que surgiram e das consequências históricas que ainda hoje têm.

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • Ricardo Alves

    Caro Ricardo Dabo,
    o exemplo da vida extra-terrestre, para mim, é útil.

    Podemos excluir, racional e cientificamente, o «Deus» dos cristãos. Por exemplo, o «Deus» criador.

    Não podemos excluir, nem racional nem cientificamente, a existência de vida extra-terrestre. Porque existe de certeza vida no universo, pelo menos neste planeta. 😉 E porque não há qualquer razão científica para excluir a existência de outros planetas com as mesmas condições do que o nosso, e portanto nos quais poderá existir vida.

    Uma boa parte dos crentes (mas não todos) argumentam que a fé não contradiz a razão. Já observei pelo menos três estratégias diferentes: uma que consiste em afirmar que há «níveis» diferentes de realidade, e que a razão (e a ciência) seria válida para o nível mais «baixo», enquanto a «fé» seria válida para o «nível» mais elevado. Esta é usada por alguns católicos. A estratégia dos cristãos evangélicos é mais radical: afirmar que a existência de «Deus» é racional. Há ainda a estratégia, que me parece ser a do Alfredo Dinis neste texto, de afirmar que a fé é racional porque é racional acreditar nos «testemunhos» mesmo que sejam irracionais.

    Agradeço o seu comentário, mesmo longo, porque foi interessante.

  • Ricardo Alves

    Nuno Leal,
    não estou convencido de que se consiga simular totalmente o cérebro humano. Mas também não estou convencido de que se consiga simular o cérebro de um cão. E os cães também tomam decisões.

  • Ricardo Alves

    Alfredo Dinis,
    existem razões científicas para não crer na ressurreição. Essa, do meu ponto de vista, é a razão primeira para não acreditar no testemunho dos primeiros cristãos. O Alfred
    o também não acredita, penso eu, no testemunho dos primeiros mórmones. Porquê? Eles foram «transformados» pelo que viram (ou não), e fundaram uma igreja que cresceu rapidamente. Tanto como o cristianismo dos primeiros anos.

    A segunda razão são os exemplos que o Ricardo Dabo lhe apontou: os contemporâneos dos primeiros cristãos relataram coisas incríveis, e aparentemente também acreditavam nelas.

    Finalmente, se os cristãos não acreditam realmente na «ressurreição», então serão cristãos de cultura e não de fé.

  • Nuno Leal

    Ricardo, atendendo ao estado actual da arte tenho a certeza de que isso não é possível.

    Porém, teoricamente seria possível, uma vez que ambos os sistemas se baseiam no mesmo tipo de linguagem binária (sinapse/não sinapse; 0/1).

  • antonioparente

    Ricardo Alves

    Eu vinha comentar mas o Nuno Leal meteu-se pelo meio e tive de lhe dar um piparote amigável. Voltarei mais tarde com os meus argumentos críticos ao seu post.

  • ricardodabo

    Caro Alfredo, você deixou um comentário para o Ricardo, mas não disse qual deles. De qualquer modo, não posso deixar de comentar o que você escreveu.

    Você parece ver os Evangelhos como um registro factual dos acontecimentos. A mesma coisa eu poderia dizer sobre as obras do Suetônio e do Plutarco. Concordo com você quando diz que nem todos os textos antigos estão no mesmo nível. A única coisa que não entendo é quais os critérios que você utiliza para acreditar na veracidade do relato bíblico e não no dos historiadores citados. Não vejo muito bem qual a diferença entre eles.

    Saudações.

  • antonioparente

    Estimado Ricardo Dabo

    Consultei a wikipedia – uma fonte credível para qualquer republicano – e não vi lá nenhuma referência a essa estória da Olimpia.

    Em relação à vida dos doze césares encontrei uma tradução do latim para o inglês: pode indicar-me por favor onde estão as partes a que faz referência no seu comentário?

    http://www.gutenberg.org/files/6400/6400-h/6400

  • alfredodinis

    Caro Ricardo Alves,

    O que é um testemunho irracional, e por que motivo o testemunho dos primeiros cristãos lhe parece irracional?

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • alfredodinis

    Caro Ricardo Dabo,

    Coloque o cristianismo no contexto da sua história e verá que ele nada tem a ver com as fábulas que poderá encontrar em inúmeros livros e culturas. Em abstracto, fora de contexto, parece tudo igual. Mas não é em abstracto que a vida acontece. é no concreto. É aí que as diferenças se vêm mais claramente. A não ser para quem não as quiser ver.

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • alfredodinis

    Caro Ricardo Alves,

    Quais são as razões científicas que existem para não acreditar na ressurreição? O que é para si a ressurreição?

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • alfredodinis

    Caro Ricardo Dabo,
    Pergunte a um historiador pelos critérios de interpretação e avaliação de textos históricos ou não, e ele lhe dará as informações de que necessita. É claro para mim que Alice no país das maravilhas não é do género da Ilíada ou dos Lusíadas.

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • Nuno Leal

    Caro Alfredo Dinis,
    Tenho reparado que responde sistematicamente com perguntas. Ainda assim:

    O testemunho dos primeiros cristãos é:
    1- Pouco credível do ponto de vista histórico.
    2- Inaceitável do ponto de vista cientifico.

  • Ricardo Alves

    Caro Alfredo Dinis,
    eu não falei em irracionalidade. Disse apenas que há boas razões científicas para não crer na «ressurreição». E boas razões (sensatas) para não acreditar no testemunho dos primeiros cristãos.

    As razões científicas para não acreditar na ressurreição: viola um dos fundamentos do universo – a seta do tempo. A única forma de «fazer» uma ressurreição real seria inverter o fluxo do tempo. O que equivale a pôr em causa toda a estrutura do universo. Não sei se os católicos se apercebem do que significa realmente a ressurreição. Imagine um copo a partir-se. Depois imagine biliões de copos a partirem-se. Depois imagine esses biliões de copos partidos em biliões de biliões de fragmentos a voltarem à forma original. Não faz sentido, pois não? Mas é isso que defendem os cristãos que acreditam na ressurreição. Os fundadores talvez compreendessem que estavam a crer no impossível – e que era isso que daria força à fé. Porque ter fé em que vou acordar vivo amanhã, ou que o trânsito vai funcionar como habitualmente, é trivial. A fé só é fé se exigir o impossível.

    Mas, já que me colocou duas questões, deixe-me repetir outra: porque não crê no testemunho dos primeiros mórmones?

  • alfredodinis

    Caro Nuno Leal,

    Desculpe a insistência, ainda mais em forma de pergunta, sobre as suas duas afirmações:

    “O testemunho dos primeiros cristãos é:
    1- Pouco credível do ponto de vista histórico.
    2- Inaceitável do ponto de vista cientifico.”

    Porquê?

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • Ricardo Alves

    Caro Alfredo Dinis,
    já respondi à sua primeira questão.

    Quanto à segunda: eu não sou cristão. Não é a mim que compete precisar a «ressurreição». Deixo isso para os crentes.

    Cumprimentos,

  • alfredodinis

    Caro Ricardo Alves,

    O que é para si a ressurreição?

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • Ricardo Alves

    Caro Alfredo Dinis,
    a ressurreição, como deve saber, é viver depois de morrer. Ou seja, ir para sul do Pólo Sul.

    Continuo à espera das suas razões para preferir o testemunho dos cristãos ao testemunho dos mórmones.

    Cumprimento,

  • Alfredo Dinis

    Caro Ricardo Alves,

    A ressurreição no sentido cristão não é um regresso à vida biológica depois da morte biológica.
    Não tenho qualquer razão que me mostre que os Mórmons me oferecem uma alternativa mais credível que o cristianismo que recebi dos primeiros discípulos de Cristo.
    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • Ricardo Alves

    Caro Alfredo Dinis,
    se a «ressurreição» não é um regresso à vida biológica depois da morte biológica, então como a define?

    E quais são as razões para considerar o testemunho dos primeiros mórmones menos credível do que o testemunho dos primeiros cristãos?

    Cumprimentos,

  • Alfredo Dinis

    Caro Ricardo Alves,
    Da ressurreição sabemos que Cristo ressuscitado se manifestou aos discípulos mas não no seu corpo biológico. Ao contrário de muitos não crentes, eu não tenho a pretensão de saber explicar tudo.
    O cristianismo teve o seu início em Jesus Cristo e nos primeiros discípulos que com ele contactaram e nos transmitiram a sua experiência pessoal bem como as palavras de Jesus. Nada disto se encontra nos Mórmons. O cristianismo tem pois um fundamento mais credível.

    Saudações,

    Alfredo Dinis

  • ricardodabo

    Caro Antonio Parente, desculpe a demora em responder. É que não eu tinha visto o seu comentário. Ficou tão curto que passou despercebido.

    Você tem sorte. Eu peguei A vida dos doze césares numa biblioteca pública. Portanto, não tenho como citar a passagem que mencionei. Mas não está difícil. Vá até o capítulo dedicado ao Otávio Augusto. Não deixe, porém, de ler todo o livro. Há outras extravagâncias ainda mais espantosas. Se não estou enganado, parece que quem tocava o Otávio Augusto se curava de suas doenças… Se não é ele o milagreiro, é outro césar. Você terá que ler tudo.

    Quanto à obra do Plutarco, tenho-a na minha casa e vou citar a passagem. Vai aí:

    “Acrescenta-se que Filipe perdeu uma das vistas ao olhar através do buraco da porta, pelo qual vira Júpiter deitado ao lado de sua esposa, sob a forma de uma serpente”.

    Isso está logo na segunda página.

  • ricardodabo

    eu não…

  • Ricardo Alves

    Caro Alfredo Dinis,
    crê que «manifestou-se mas não no seu corpo biológico». Então, como é que o reconheceram? Pode uma pessoa ser reconhecida sem o seu corpo/imagem? E, mais importante, o que é que se manifestou?

    Acreditar que uma pessoa se possa manifestar depois de morta cria mais problemas do que os cristãos imaginam.

    Quanto ao cristianismo/mormonismo: talvez não me tenha feito entender. Eu sei que os cristãos crêem que a sua religião tem origem em JC, e numa experiência pessoal de algumas pessoas com ele. O que eu estava a perguntar é porque considera essa «experiência» mais crível do que a «experiência» de Joseph Smith e dos seus seguidores, que como deve saber não rejeitam o cristianismo, mas acreditam, além do cristianismo, que:
    -Joseph Smith viu e conversou com Jesus Cristo;
    -foi visitado por um anjo.
    Estou a tentar entender como rejeita os fundamentos do mormonismo. Que tipo de critério.

  • antonioparente

    Caro ricardodabo

    Consultei a versão inglesa de Plutarco sobre a vida de Filipe e não encontrei a passagem que referiu. Fala em serpentes mas noutro contexto.

    Depois fui à wikipedia e descobri um documento interessante sobre a relação entre Filipe e Olimpia. Nada sobre Zeus e a serpente.

    Depois fiz uma pesquisa no Google e encontrei uma biografia de Filipe em inglês. Nada sobre o caso extra-conjugal de Olimpia com Zeus.

    Olhe, não sei que lhe diga. Não terá comprado uma edição de outro Plutarco qualquer? É muito estranho essa história não surgir nas pesquisas.

    Agora encontrei isto:

    “Historiadores acreditam que Alexandre, o Grande via-se como semideus, ao usar como título a expressão “Filho de Amon-Zeus” (diz-se de sua mãe, Olímpia, haver declarado que Zeus a engravidara enquanto dormia debaixo de uma árvore consagrada ao deus). O título foi atribuído a ele por sacerdotes egípcios do deus Amon, no oráculo junto ao oásis de Siwah, no deserto líbio.”

    será isto? se é é diferente da História de Jesus porque ser Filho de Deus no Novo Testamento tem uma conotação diferente. Penso que o ricardo dabo, que me parecer ser um erudito, sabe isso.

  • ricardodabo

    Caro Antonio Parente, não sei qual a sua dúvida. Eu citei ontem o texto do Plutarco. Já que você não acredita, vou citar as duas primeiras páginas do Alexandre, do Plutarco. Veja você o grau de superstição da época.

    “É opinião corrente que, do lado paterno, Alexandre descendia de Hércules, por Carano, e, do lado materno, dos Eacides, por Neptolemo. Afirma-se que Filipe, estando em Samotracia, ainda mocinho, ali foi iniciado nos mistérios com Olimpiada, que então era menina e orfã de pai e mãe. Enamorou-se dela, conseguiu que Adimbas, irmão da moça, aprovasse o seu propósito, e a obteve em casamento. Na noite que precedeu aquela em que os nubentes se encerraram no quarto nupcial, Olimpiada teve um sonho. Pareceu-lhe ter ouvido o estrondo de um trovão e ter sido atingida pelo raio nas entranhas: com o golpe, um grande fogo se acendera, e, depois de se dividir em numerosas labaredas crepitantes, logo se dissipara. Filipe, por sua vez, algum tempo depois do casamento, sonhou que marcava o ventre da esposa com um sinete de leão. Segundo a interpretação dos adivinhos, esse sonho significava que Filipe devia vigiar muito de perto sua mulher. Um deles, porém, Aristandro de Telmesso, afirmou que o sonho indicava a gravidez da rainha: “É de todo inútil – disse – marcar barcos vazios: Olimpiada traz no seio um filho que terá a coragem de um leão”. Enquanto Olimpiada dormia, viu-se também um dragão deitado a seu lado; e – acrescenta-se – foi sobretudo por esse motivo que o amor de Filipe arrefeceu e os seus testemunhos de ternura diminuiram; não ia passar a noite com ela tão frequenteme como antes, quer por medo de que algum malefício ou outro influxo mágico o atingisse, quer pelo respeito que o afastava do tálamo, que ele acreditava ocupado por um ser divino”.
    (…)
    “Seja como for, Filipe enviou Querão de Megalópolis a consultar o oráculo de Delfos acerca do sonho que havia tido; e, como resposta, Querão declarou – sengudo se diz – que Apolo ordernara-lhe que sacrificasse a Amon e venerasse de modo particular esse deus. Acrescenta-se que Filipe perdeu uma das vistas ao olhar através do buraco da porta, pelo qual vira Júpiter deitado da sua esposa”.

    Não vá ao wikipédia. Todo mundo sabe que a wikipédia não é confiável. Vá direto à fonte. E se você for, vai encontrar o que está aí acima.

  • ricardodabo

    A propósito, você consultou o texto errado. Eu não disse Filipe, de PLutarco. Disse Alexandre…

  • Nuno Leal

    Porque é época de exames e o tempo não é farto, vou ter de ser breve.

    1- Do ponto de vista histórico, o “testemunho” dos primeiros cristãos não é credível devido a vários factores, entre eles a similaridade dos acontecimentos que descrevem com outras lendas/mitos mais antigas, a falta de historiadores credíveis que tenham registado o acontecimento, o contexto de misticismo e ignorância na época em causa, etc.

    2- É óbvio que, de um ponto de vista cientifico, é impossível inverter as leis naturais como a que o Ricardo Alves enunciou mais acima.

    Cumprimentos

  • alfredodinis

    Caro Nuno,
    Não podemos tomar a parte pelo todo. Há aspectos na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, mas também no Novo, que têm semelhanças com narrativas de outras culturas, algumas de carácter mitológico. Mas a Bíblia não é apenas isso. E mesmo essas passagens têm um significado que ultrapassa o seu sentido literal.

    Também no que se refere aos discípulos de Jesus e aos primeiros cristãos, não podemos tomar a parte pelo todo, como se todos não passassem de grandes ignorantes.

    Finalmente, a ressurreição de Jesus, bem como qualquer um dos milagres de Jesus, não contradiz as leis da natureza nem exige o seu carácter reversível.

    Bons exames!

    Alfredo Dinis

  • Ricardo Alves

    Caro Alfredo Dinis,
    se uma pessoa se «manifesta» depois da sua morte, essa «manifestação» contradiz as leis da natureza. Não há escapatória.

  • Ricardo Alves

    Caro Alfredo Dinis,
    se uma pessoa se «manifesta» depois da sua morte, essa «manifestação» contradiz as leis da natureza. Não há escapatória.

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