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O santo português que matou 36 mil espanhóis

 

Um artigo de Moisés Espírito Santo no «Jornal de Leiria»:

 

 Falo de Nun’Alvares.

Até há pouco, as mulheres ameaçavam os miúdos com «Olha que eu chamo o Dom Nuno!». Um papão.

Os portugueses só o conhecem porque ele derrotou os espanhóis. Em Aljubarrota foram 36.000, para além dos 7 de que se encarregou a padeira.

Invocou Santa Maria – que só será Mãe dos portugueses e não dos espanhóis – venceu. Esta mitologia merece tanto crédito como as lendas de feiticeiras; o problema é que, repetida hoje, significa estagnação cultural. Ideologia rústica fora do tempo.

O povo vai venerar um santo só porque ele derrotou os espanhóis. (Ficamos à espera que seja canonizado o régulo Gungunhana que se sacrificou pela independência da sua pátria, Moçambique…).

O Dicionário de História de Portugal, de Joel Serrão, lemos isto: «[Nun’Alvares] exigia sempre uma disciplina rigorosa e o exacto cumprimento das suas ordens; se isso não sucedia tornava-se bravo como um leão, chegando a matar os cavalos e a ferir os corpos dos descuidados, se eram pessoas de mais pequena condição».

Entenderam: «se eram pessoas de mais baixa condição». 

Cavaco Silva, ao integrar a comissão de honra da canonização, disse que «pode ser um exemplo para os portugueses». Eu diria que exemplos desses já temos de sobra: uma Justiça que condena os pobres e absolve os ricos; os trabalhadores pagam impostos enquanto os políticos e suas famílias acumulam milhões com a corrupção, os banqueiros a apropriarem-se dos dinheiros dos clientes…

Preferia ver o responsável máximo da Nação – que, hoje, é amiga de Espanha – a abster-se desses conluios patriotiqueiros e a apontar os espanhóis como exemplo de civismo, criatividade e empreendedorismo.

Não foi pelas qualidades guerreiras do Condestável que o Vaticano o canonizou. Seria porque, já velho e impotente, se recolheu a um convento onde viveu 8 anos ? (Diz o ditado: «O diabo depois de velho fez-se ermitão»).

Não consta que tivesse dado as suas riquezas aos pobres, como se diz agora. Que se dedicasse a tarefas conventuais, milhões de frades o fizeram.

No entanto, o mesmo historiador que citei diz: «Por baixo do hábito de frade, Nun’ Álvares trazia por vezes vestido o seu arnez de combatente».

 Estão a ver? Um belicoso disfarçado de frade.

Foi pelo milagre do salpico de azeite quente que saltou para a vista duma mulher de Ourém e que não a cegou?

Porque foi? E porque só agora? Política vaticana.

A beatificação, em 1918, visou combater as Repúblicas portuguesa e espanhola, liberais. Depois o processo foi p’ra gaveta, por cumplicidade com os fascismos ibéricos.

 

Agora, como o Condestável foi anti-espanhol, saiu dos arquivos para a actual guerrilha entre a Espanha e o Vaticano (este já não tem mão duma nação que foi a mais católica do Globo).

Primeiro foi a lei sobre o aborto. Depois, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo que levou os bispos espanhóis a saírem à rua em manifestação (coisa nunca vista – para combater uma lei democrática).

 

Bento XVI até veio a Espanha apoiar os bispos num congresso em favor da «família tradicional».

Hoje há o problema das aulas de Religião e Moral que o governo substituiu por Educação Cívica, e o programa da Memória Histórica sobre a guerra civil a que a Igreja – que foi co-responsável nessa guerra – se opõe («para não abrir feridas», diz ela).

Se isto fosse em países como Inglaterra, Alemanha ou França, laicos ou protestantes de longa data, passons como dizem os franceses.

Vindo de Espanha que foi a católica por excelência, no pasaran como diriam os bispos espanhóis. E passaram.

Então… «Tomem lá com o Condestável português que vos derrotou!» (Sendo eles como são, faz-lhes tanta mossa como mostrar-lhes um espantalho).

 

Esta canonização é a reprodução da de Santa Joana d’Arc, rapariga francesa que derrotou os ingleses invasores da França, em Orléans (1429); mas foi entregue traiçoeiramente aos ingleses que a condenaram à fogueira por heresia (1431).

Só foi beatificada em 1909 e canonizada em 1920, uma época de fundamentalismo católico… contra a Inglaterra protestante.

 

E, com este costume medieval de inventar santos e de os pôr a fazer política, é a imagem do Vaticano que fica muito aquém das culturas da modernidade.

9 thoughts on “O santo português que matou 36 mil espanhóis”
  • Laico

    Com o meu pedido de desculpa por usar este site como meio de divulgação do meu pequeno blogue onde por vezes espresso a minha azedura contra tudo e todos que se prestam apenas para difamar e defender valores que nada têm de valor.
    Aqui fica o meu endereço:

    http://leiturasazedas.blogs.sapo.pt/

  • Laico

    Xiii só agora é que dei conta. Bati no S em vez do X na palavra espresso. Perdon

  • Torres

    Depois de santificarem Josemaria Escrivá, incondicional de Franco,simpatisante de Hitler e cumplice de Pinochet, em termos de santinhos estamos conversados. Mercado é mercado. Deve renovar-se a divina oferta.

  • Cid, o Campeador

    “No Dicionário de História de Portugal, de Joel Serrão, lemos isto: Nun’Alvares exigia sempre uma disciplina rigorosa e o exacto cumprimento das suas ordens; se isso não sucedia tornava-se bravo como um leão, chegando a matar os cavalos e a ferir os corpos dos descuidados, se eram pessoas de mais pequena condição.”

    Moisés Espírito Santo não só não percebe patavina deste período específico da história de Portugal, como ainda por cima é mentiroso! Gostava de saber onde o eminente sociólogo das religiões na reforma foi desencantar este precioso parágrafo atribuído por si ao historiador Joel Serrão! Nenhuma das 4 fontes primárias que temos sobre Nuno Álvares Pereira (Fernão Lopes, Pero López de Ayala, Jean Froissart, Crónica do Condestabre) refere em lado algum que o Condestável “tornava-se bravo como um leão, chegando a matar os cavalos e a ferir os corpos dos descuidados, se eram pessoas de mais pequena condição”. Só por profunda ignorância ou má-fé é que se pode afirmar tal disparate, pois os cavalos eram considerados de tal modo indispensáveis para a logística militar medieval que nenhum comandante do período, por mais demente ou imbecil que fosse, se atreveria a emitir ordem tão absurda!

    Depois temos: “No entanto, o mesmo historiador que citei diz: «Por baixo do hábito de frade, Nun’ Álvares trazia por vezes vestido o seu arnez de combatente.”

    Outro mito que mais uma vez carece de qualquer fundamento histórico. Afinal de contas, parece que o insigne doutor Moisés Espírito Santo também acredita em mitos, mas só naqueles que convêm à sua agenda ideológica, claro está. O que até não surpreende, pois é uma atitude típica de muitas mentes “racionalistas”.

  • JoseMoreira

    Já “mora” no meu blogue:
    http://blogdozemoreira.blogspot.com/2009/12/o-n

  • Zeca Portuga

    Portugal e Espanha não são “nações” amigas, são países com projectos e interesses comuns que se pautas pelas boas relações diplomáticas. Os países e as nações vivem de ocordos e não de amizades.

    O exemplo de Nun'Álvares é uma das maiores honras do país, e é um dos obreiros da familia e da cultura Lusa. Desdizer isto é trair a Pátria, a cultura portuguesa e a nossa identidade comum. è o mesmo que chamar assassinos aos ex-combatentes de ultramar.

    Observaçoes tão indecentes e rudes demonstram a pequenez de uma mente definhada, de uma falta de cultura, de civismo e a irresponsabildiade proprias de um inimputável por em razão da sua demencia ou da sua tenra idade.

    A Igreja beatifica quem, lhe prestou subidos serviços ou deixou um exemplo que o comum dos mortais não tem.
    Vencer os inimigos é uma das maiores honras de quem defende uma causa.

  • JoseMoreira

    Já percebi… Tu, vomitando neste portal, estás à espera de beatificação.
    Aproveita, e diz alguma coisa de jeito.

  • Zeca Portuga

    Se aqui vomito é porque vós meteis nojo.
    Os ateistas enojam o mais resitente estomago.

    Claro que vomito!

  • Zeca Portuga

    Se aqui vomito é porque vós meteis nojo.
    Os ateistas enojam o mais resitente estomago.

    Claro que vomito!

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