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  • 21 de Dezembro, 2009
  • Por Carlos Esperança
  • Laicidade

Ameaças da ICAR contra o “democratismo”

Por

A H P

Na sua habitual homilia dominical no Diário de Coimbra, hoje Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo Emérito de Coimbra Dom João Alves publicou um texto com o título aparentemente inócuo “Natal sem Cristo não é Natal”.

1.Começa por lamentar, entre outros males, “a falta de emprego, sempre a crescer,[que]amargura a vida de tantos sem esperança de melhores dias no futuro e quantos outros problemas a entristecer o Natal Festa da alegria e da paz.”. No entanto Deus, embora omnipotente e infinitamente misericordioso, nada pode fazer para resolver estes males.

Para o Senhor Bispo Emérito, “Deus, no respeito da liberdade de cada ser humano e no respeito das leis que regem a realidade que Ele criou, tem maneiras de inspirar os seres humanos para que se vão abrindo à sabedoria e corrigindo o que se degradou e sigam o caminho da justiça e da solidariedade.”

Isto é, se bem consigo compreender: Deus “criou a realidade” mas dotou-a de “leis que a regem” e que nem ele, embora omnipotente, pode alterar. Os homens é que têm a culpa de todos os males do mundo; Deus apenas pode “inspirá-los” a corrigir-se. No entanto essa divina “inspiração” poucos resultados tem dado…

2. Descendo depois a realidades menos metafísicas, Sua Eminência insurge-se contra uma “minoria, pequeníssima minoria, [que] tem tido, entre nós, atitudes agressivas como o banir do crucifixo”, que “são agressões à quase universal atitude cristã do povo português”, pois Portugal é “um pais com maioria esmagadora de cristãos católicos”.

Ora acontece que as estatísticas, feitas cientificamente e não inspiradas pelo Espírito Santo, demonstram o contrário. Admito que a maior parte dos portugueses sejam baptizados, mas são-no numa idade em que não têm capacidade de escolher. Quando já têm essa capacidade, por exemplo quando se casam, sabe-se por exemplo que, no ano passado, de todos os casamentos celebrados apenas 44% foram católicos, sendo que os restantes 56% foram civis.

Se àqueles já de si minoritários 44% descontarmos aqueles que se casam pela Igreja apenas porque a cerimónia é “mais bonita” ou por não quererem desagradar à parentela, e as estes 56% acrescentarmos os que vivem maritalmente sem sequer se casarem,facilmente concluiremos que a grande maioria dos portugueses não é católica.

Falece poi razão a Sua Eminência quando pergunta: “Não haverá aqui um democratismo ofensivo da fé do povo português? Não estaremos perante um democratismo ideológico e pouco esclarecido?”, e quando afirma que “é uma minoria de activistas que toma essa atitude ‘estranha'”. Mas o pior é quando o Senhor Bispo Emérito passa à ameaça, dizendo: “A paciência tem limites. Convém não brincar com o fogo”. Esta ameaça, sobretudo vinda de um prelado português, é de muito mau gosto. A que “fogo” se refere? Às fogueiras da Inquisição ou aos mais recentes casos em que uns energúmenos, açulados pela padralhada reaccionária, incendiaram sedes de partidos políticos?

Convém por isso lembrar-lhe que aqueles a que chama “minoria de activistas” já conseguiram, há mais de dois séculos, acabar com as fogueiras do Santo Ofício, e, há mais de três décadas, acabar com esses actos criminosos. E mais recentemente o povo português aprovou em referendo uma regulamentação da interrupção voluntária da gravidez apesar de a Igreja ter assestado contra ela todas as suas baterias.

Não, Senhor Bispo Emérito, não se trata de uma “minoria de activistas”; trata-se de uma clara maioria de democratas defensores da laicidade, que já não têm medo do fogo do inferno nem do fogo da Inqisição!

7 thoughts on “Ameaças da ICAR contra o “democratismo””
  • Ricardo Alves

    Muito bem.

  • ricardodabo

    Não tem nada a ver com o assunto, mas encontrei este bom texto do Carl Sagan sobre o aborto.

    http://ocanto.esenviseu.net/sagan.htm

    É curioso saber que a ICAR nunca se importou muito com aborto de embriões…

  • ricardodabo

    Ricardo Alves,

    lembra-se daquele texto que você escreveu dias atrás, aquele que continha a alegação religiosa de que Deus está fora do tempo e do espaço?
    Diga-meê: se isso fosse verdade, como Deus poderia ser onipresente? Como estaria em todas as coisas deste mundo estando fora do espaço?
    Consegue imaginar o que um crente diria a respeito?

  • Ricardo Alves

    Ricardo Dabo,
    muitos crentes desenvolvem uma capacidade espantosa de contornar objecções dessas. Conseguem dizer que um «Deus» está fora do espaço e dentro do espaço, porque «categorias dessas não têm sentido para quem as criou». Apontar as contradições que surgem daí é um exercício lógico meritório.

  • Baal

    De facto já chateia ouvi-los falar na “esmagadora maioria católica” do povo tuga quando todos sabemos que essa esmagadora maioria se está nas tintas para os preceitos da igreja. Apenas um terço da população frequenta as igrejas. Nem seuqer conseguem renovar o exército de padres. Não estou a ver onde está essa tão falada maioria.

  • Ricardo Alves

    Ricardo Dabo,
    muitos crentes desenvolvem uma capacidade espantosa de contornar objecções dessas. Conseguem dizer que um «Deus» está fora do espaço e dentro do espaço, porque «categorias dessas não têm sentido para quem as criou». Apontar as contradições que surgem daí é um exercício lógico meritório.

  • Baal

    De facto já chateia ouvi-los falar na “esmagadora maioria católica” do povo tuga quando todos sabemos que essa esmagadora maioria se está nas tintas para os preceitos da igreja. Apenas um terço da população frequenta as igrejas. Nem seuqer conseguem renovar o exército de padres. Não estou a ver onde está essa tão falada maioria.

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