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Torce palavras

A teologia safa-se pelo domínio da ambiguidade, e Anselmo Borges deu uma bela lição disto no DN de dia 20. A Associação Humanista Britânica está a organizar uma campanha publicitária a favor do ateísmo, com o slogan «Deus provavelmente não existe. Agora deixe de se preocupar e goze a vida» (1). Anselmo Borges diz que é uma ideia interessante porque obriga «as pessoas a pensar nas questões essenciais, e Deus é uma dessas questões decisivas.» (2)

Questões são perguntas. Como é que surgiu o universo? O que nos causou? Como podemos saber? O Anselmo torce o sentido de “questão” e mete uma resposta pela porta do cavalo. Porque Deus não é uma questão. O deus do Anselmo é apenas uma de muitas tentativas de responder estas perguntas. E levanta uma questão importante. Porque é que há de ser o deus dele e não um dos outros? Para responder a isto, a teologia torce as palavras conforme dá jeito.

«Afinal, também há razões para não crer, mas, quando se pensa na contingência do mundo, no dinamismo da esperança em conexão com a moral e na exigência de sentido último, não se pode negar que é razoável acreditar no Deus pessoal, criador e salvador, que dá sentido final a todas as coisas. Numa e noutra posição – crente e não crente -, entra sempre também algo de opcional.»

Crer ou não crer é uma escolha. Mas a palavra “razões” é usada aqui de duas formas subtilmente diferentes. Quando somos razoáveis baseamo-nos em razões partilhadas. Quando usamos razões só nossas não somos razoáveis aos olhos dos outros. É razoável largar o pote se está demasiado quente mas não por me dar na gana ou por medo que dê azar. As razões para não crer em Deus vêm do que observamos à nossa volta. Cada criança que fica sem pernas por pisar uma mina dá uma razão forte para rejeitar o tal ser benevolente que lhe podia ter segredado “cuidado, aí há minas”*. A imensa indiferença do universo perante o nosso sofrimento torna razoável a descrença. Mas a crença em Deus, como o próprio Anselmo admite, vem apenas de desejos pessoais como a esperança e a exigência de um sentido último, e não é por desejos que se forma uma opinião razoável acerca do que existe ou não existe.

Depois, o amor. «Agora que está aí o Natal, é ocasião para meditar no Deus que manifesta a sua benevolência e magnanimidade criadoras no rosto de uma criança. Jesus não veio senão revelar que Deus é amor, favorável a todos os homens e mulheres» (mas não às crianças que pisam minas).

Usamos a palavra “amor” para referir o que sentimos por alguém ou para referir esse alguém. Esta ambiguidade é ideal para a teologia. No primeiro sentido “Deus é amor” dá uma evidência directa que Deus existe. Todos sentimos amor e os crentes amam Deus. O sentimento existe. E torcendo a palavra para o outro lado concluem que o objecto desse amor também existe. É um disparate atraente. É disparate porque o objecto do nosso amor pode nem se parecer com aquilo que julgávamos amar. Mas é atraente porque preferimos esquecer essas experiências dolorosas e fingir que não é assim. O amor não só cega como enfraquece as ideias.

E quando torcem o amor com a ciência têm uma combinação perfeita. «A existência de Deus não é objecto de saber de ciência, à maneira das matemáticas ou das ciências verificáveis experimentalmente.» Ou seja, a existência de Deus não é ciência por não ser de cariz experimental. E Deus é amor, que sabemos não ser científico. Mas isto só encaixa torcendo as palavras. Porque o amor é experimental; é experimentando-o que o conhecemos e é pela experiência quotidiana que sabemos quem amamos e quem nos ama. E o amor só não é científico porque nos falta uma teoria detalhada. Falta-nos as palavras para modelar o amor. Falta-nos o logos do amor.

Mas isso é o que a teologia finge ser. O logos de Deus que, segundo dizem, é amor. A teologia é a teoria do amor inventada por celibatários que baralham as palavras e negam a experiência. Não admira que mesmo ao fim de tantas voltas não tenham chegado a lado nenhum.

*A desculpa para isto é a vontade livre. É um argumento válido, e aceito-o. Mas apenas nos casos em que a própria criança pôs lá a mina.

1- CNN, 23-10-08, Atheists Run Ads Saying God ‘Probably’ Doesn’t Exist
2- Anselmo Borges, DN, 20-12-08, ”Provavelmente Deus não existe”

Em simultâneo no Que Treta!

17 thoughts on “Torce palavras”
  • Alberto

    Na minha opinião, ateus e teólogos são semelhantes, uns negando, outros afirmando a existência de Deus. A semelhança está na distância que separa seus corações do Amor do Altíssimo.

  • Alberto

    Na minha opinião, ateus e teólogos são semelhantes, uns negando, outros afirmando a existência de Deus. A semelhança está na distância que separa seus corações do Amor do Altíssimo.

  • Alberto

    Apesar disso, os teólogos levam pequena vantagem, por estarem mais próximos de achar O Caminho.

  • Alberto

    Apesar disso, os teólogos levam pequena vantagem, por estarem mais próximos de achar O Caminho.

  • Atheos

    Beto, deus é tão real quanto Zeus,Hera, Poseidon, sereias, gnomos…

  • Atheos

    Beto, deus é tão real quanto Zeus,Hera, Poseidon, sereias, gnomos…

  • Ludwig Krippahl

    Alberto,

    «Na minha opinião, ateus e teólogos são semelhantes»

    Eu vejo uma grande diferença entre dizer que o Pai Natal não existe e dissertar, assente apenas na fé e na especulação, acerca de onde o Pai Natal vive, o que ele pensa, o que faz nos dias de folga e assim por diante.

  • Ludwig Krippahl

    Alberto,

    «Na minha opinião, ateus e teólogos são semelhantes»

    Eu vejo uma grande diferença entre dizer que o Pai Natal não existe e dissertar, assente apenas na fé e na especulação, acerca de onde o Pai Natal vive, o que ele pensa, o que faz nos dias de folga e assim por diante.

  • Alberto

    Querida irmandade, a semelhança é que ambos falam do que desconhecem. Uns crêm ser verdade, outros se recusam aceitar.
    Mas, os verdadeiros adoradores O conhecem.
    “Não contenderá, nem sua voz se ouvirá nas praças.” “Porque o fruto da paz se espalhará em paz.”

  • Alberto

    Querida irmandade, a semelhança é que ambos falam do que desconhecem. Uns crêm ser verdade, outros se recusam aceitar.
    Mas, os verdadeiros adoradores O conhecem.
    “Não contenderá, nem sua voz se ouvirá nas praças.” “Porque o fruto da paz se espalhará em paz.”

  • elmano

    Obrigado ao Ludwig Krippahl pela bela dessertação e por ter contraditado o Anselmo.
    Eles falam de amor. Só falam.
    Não praticam.
    E têm ódio a quem nasce diferente. Sem qualquer culpa.
    Este ano atiraram-se aos homosexuais.
    Quem sabe se num futuro próximo não se atiram aos cegos, aos surdos…aos marrecos.
    Que também não têm qualquer culpa por assim terem nascido.
    Pregam amor mas continuam à procura de “seres perfeitos”.
    Como Hitler!

  • elmano

    Obrigado ao Ludwig Krippahl pela bela dessertação e por ter contraditado o Anselmo.
    Eles falam de amor. Só falam.
    Não praticam.
    E têm ódio a quem nasce diferente. Sem qualquer culpa.
    Este ano atiraram-se aos homosexuais.
    Quem sabe se num futuro próximo não se atiram aos cegos, aos surdos…aos marrecos.
    Que também não têm qualquer culpa por assim terem nascido.
    Pregam amor mas continuam à procura de “seres perfeitos”.
    Como Hitler!

  • Atheos

    Como Pavelic

  • Atheos

    Como Pavelic

  • mathias

    O que alimenta a existência de deus é o desejo humano de viver eternamente, eu gostaria de viver para sempre mas não faço ideia se isso seria legal ou chato, mas os fatos, esse mundo bárbaro, indicam que deus ou não existe ou, se existir, deve ser muito mau. Agora negar ou afirmar a existência de um deus é exagerado, basta a gente admitir que não sabe o que acontece e assunto encerrado.

  • mathias

    O que alimenta a existência de deus é o desejo humano de viver eternamente, eu gostaria de viver para sempre mas não faço ideia se isso seria legal ou chato, mas os fatos, esse mundo bárbaro, indicam que deus ou não existe ou, se existir, deve ser muito mau. Agora negar ou afirmar a existência de um deus é exagerado, basta a gente admitir que não sabe o que acontece e assunto encerrado.

  • mathias

    O que alimenta a existência de deus é o desejo humano de viver eternamente, eu gostaria de viver para sempre mas não faço ideia se isso seria legal ou chato, mas os fatos, esse mundo bárbaro, indicam que deus ou não existe ou, se existir, deve ser muito mau. Agora negar ou afirmar a existência de um deus é exagerado, basta a gente admitir que não sabe o que acontece e assunto encerrado.

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