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Fátima vista por Fernando Pessoa

O historiador José Barreto vai revelar quarta-feira, em Lisboa, um texto inédito de Fernando Pessoa a propósito de Fátima, assunto sobre o qual o poeta fez várias referências desde 1920 até à sua morte.

«Trata-se de um texto inédito de cinco páginas manuscritas em que Pessoa reflecte sobre o fenómeno de Fátima», disse José Barreto.

«Pessoa e Fátima. A prosa política e religiosa», será o título da palestra que o historiador apresentará na Casa Fernando Pessoa, quarta-feira às 18h30, no âmbito de um ciclo dedicado ao 120.º aniversário do seu nascimento.

No ano da sua morte, em 1935, Fernando Pessoa «tinha três projectos editoriais ligados a Fátima», afirmou o investigador.

Segundo José Barreto, o poeta «não tinha uma referência especialíssima com Fátima e era, aliás, anti-católico, mas acompanhou o fenómeno desde a sua génese à oficialização do culto e à construção da igreja».

Apesar de anti-católico, «em prol da liberdade, Pessoa defendeu a Igreja Católica contra o radicalismo republicano, em especial do Partido Democrático», explicou o investigador do Instituto de Ciências Sociais.

Esta não é a primeira vez que José Barreto aborda a figura de Fernando Pessoa, sobre a qual tem estado a investigar.

Já publicou na imprensa um artigo sobre esta temática religiosa, mas é a primeira vez que traz a lume o texto inédito intitulado Fátima.

A sua área de investigação tem sido, desde a década de 1990, a história social e política do século XX em Portugal, com destaque para a política católica, as relações Estado-Igreja e Fátima, bem como a história do pensamento político e dos intelectuais portugueses.

Fonte: Sol, 01 de Junho de 2008.

2 thoughts on “Fátima vista por Fernando Pessoa”
  • centauro

    Um poema de Fernando Pessoa, muito pouco conhecido:

    António de Oliveira Salazar
    Três nomes em sequência regular
    António é António
    Oliveira é uma árvore
    Salazar é só apelido
    Até aí está bem.
    O que não faz sentido
    É o sentido que tudo isto tem.

    Este senhor Salazar
    É feito de sal e azar.
    Se um dia chove,
    A água dissolve
    O sal,
    E sob o céu
    Fica só azar, é natural…

    Oh, c’os diabos!
    Parece que já choveu…

    Coitadinho
    Do tiraninho!
    Não bebe vinho,
    Nem sequer sozinho…

    Bebe a verdade
    E a liberdade.
    E com tal agrado
    Que já começaram
    A escassear no mercado.

    Coitadinho
    Do tiraninho!
    O meu vizinho
    Está na Guiné
    E o meu padrinho
    No Limoeiro
    Aqui ao pé
    Mas ninguém sabe porquê.

    Mas enfim é
    Certo e certeiro
    Que isto consola
    E nos dá fé:
    Que o coitadinho
    Do tiraninho
    Nem bebe vinho
    Nem até
    Café.

  • centauro

    Um poema de Fernando Pessoa, muito pouco conhecido:

    António de Oliveira Salazar
    Três nomes em sequência regular
    António é António
    Oliveira é uma árvore
    Salazar é só apelido
    Até aí está bem.
    O que não faz sentido
    É o sentido que tudo isto tem.

    Este senhor Salazar
    É feito de sal e azar.
    Se um dia chove,
    A água dissolve
    O sal,
    E sob o céu
    Fica só azar, é natural…

    Oh, c’os diabos!
    Parece que já choveu…

    Coitadinho
    Do tiraninho!
    Não bebe vinho,
    Nem sequer sozinho…

    Bebe a verdade
    E a liberdade.
    E com tal agrado
    Que já começaram
    A escassear no mercado.

    Coitadinho
    Do tiraninho!
    O meu vizinho
    Está na Guiné
    E o meu padrinho
    No Limoeiro
    Aqui ao pé
    Mas ninguém sabe porquê.

    Mas enfim é
    Certo e certeiro
    Que isto consola
    E nos dá fé:
    Que o coitadinho
    Do tiraninho
    Nem bebe vinho
    Nem até
    Café.

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