Loading
  • 27 de Maio, 2008
  • Por Carlos Esperança
  • Religiões

Momento zen de segunda

João César das Neves (JCN), sem sotaina nem tonsura, adora ser o eco do clero católico mais conservador, ansioso de redimir os pecados com a prosa beata que debita.

Na homilia de hoje JCN refere-se à fragilidade intelectual do ateísmo e à sua alegada inconsistência, apelidando-o de crença «como as outras», considerando o ateísmo uma tradição tardia e artificial de elites, sobretudo desde o Iluminismo. Só não explica o que acontecia, antes, a quem tivesse dúvidas da fé católica ou fé em certezas diferentes. Ou o que acontece hoje em terras de Maomé.

Para JCN não há motivos plausíveis ou razoáveis para recusar a hipótese de um Criador. Nem lhe ocorre perguntar a quem se deve a criação de tal «Criador» numa interminável série de perguntas até ao absurdo.

Como não cultiva a razão e desconfia do método científico para construir modelos de realidade, JCN adjudica as questões do bem e do mal a um ser hipotético e espera viver depois da morte. Para o pio, Deus criou o homem e não o oposto, sabendo que os deuses de ontem se estudam hoje na mitologia, como acontecerá amanhã com os actuais.

Se o ateísmo está em extinção – como afirma o catequista – não se enxerga o motivo do seu desassossego. Se é feliz, porque o esperam as delícias do Paraíso, não se percebe a ansiedade que o move no seu proselitismo. Os que vivem tranquilamente sem deus não batem à porta de ninguém a anunciar a boa nova.

JCN é intelectualmente desonesto quando, depois de atribuir o ateísmo ao Iluminismo, acaba por associá-lo ao marxismo que responsabiliza pela sua «exportação à força». O ateísmo é iluminista ou marxista? Sam Harris, Christopher Hitchens, Richard Dawkins ou Pepe Rodríguez são marxistas? Ou foram-no, quiçá, Bertrand Russel, Carl Sagan ou Frederico Nietzsche?

O preconceito e a intolerância para com o ateísmo correspondem a uma escalada beata e à chantagem clerical que as religiões desencadearam contra uma opção filosófica que condena os Estados ateus do mesmo modo que se opõe aos confessionais.

Para não falar do desvario islâmico, recordo que, em 13 de Maio p.p., o cardeal Saraiva Martins presidiu em Fátima à peregrinação contra o ateísmo na Europa. Sem mais rezas, com igual legitimidade, podia ter alargado o âmbito aos cinco continentes.

Tempos antes, o habitualmente contido patriarca Policarpo, denominou o ateísmo «o maior drama da humanidade», distraído das guerras religiosas que lavram pelo mundo.

Não admira, pois que JCN reincida no tema quando os verdadeiros dramas são a guerra, a tortura, a pobreza, a intolerância, a fome e o terrorismo.

Carlos Esperança

12 thoughts on “Momento zen de segunda”
  • O Salgador da Patria

    Muito bem dito! Estou ansioso por sexta-feira. Será um prazer conhecer-te e fazer finalmente algo para assustar ainda mais essa sotaina disfarçada!

  • O Salgador da Patria

    Muito bem dito! Estou ansioso por sexta-feira. Será um prazer conhecer-te e fazer finalmente algo para assustar ainda mais essa sotaina disfarçada!

  • gt

    JCN diz textualmente: “Recusar Deus é uma crença como as outras. No fundo trata-se de ter fé na ausência divina. Mas esta crença considera-se a si mesma lógica e natural. A Antropologia e Sociologia sérias mostram o oposto: a religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas. O ateísmo é uma construção tardia e artificial de elites, sobretudo desde o Iluminismo. Mantido em ínfima minoria, agora está em clara decadência. Vendo-lhe a lógica interna, percebe-se porquê.” Claro que o ateísmo é uma crença. Mas não no domínio teológico, não se compreende numa fé, e aí está a diferença. Sê-lo não é a negação implícita em a “fé na ausência no divino.” Não! É a certeza de que o deus omnipotente, etc. não pode existir nem pode ter gerado o seu antagónico, o satã. Que todo um conjunto de regras são artificiais, impingidas a alguns que não têm tempo para terem algum pensamento filosófico e força para se libertarem dos grandes castigos que deus trará… Acreditar no inferno e nos céus, em dogmas e preceitos religiosos, em mandamentos e na palavra divina, no baptismo… Isso sim é Fé, tem a sua mitologia (ou mitologias, tão complexa é a Bíblia e o Novo testamento), tem um passado que não sendo muito marcante é apreciável, e tem uma história raramente edificante. Claro que uma certa Sociologia e outra Antropologia podem ‘testemunhar’ que a religiosidade é normal. E assim é enquanto explicação. Deus criador, e moletas como ‘a vontade de deus’, vias de simplificação, histórias confusas da génese compreendendo uma moral e outros valores. Uma ligação do homem a deus, ao infinito… Alguma estruturação social útil não fora a sua ambição desmedida em espoliar os seus adeptos, os seus crentes. O ateu não tem nada de sagrado enquanto “devoto” na fé pretendida por JCN, não tem nenhuma iniciação, não necessita de ser marxista ou filósofo, requer só ser um livre-pensador ou um pensador livre e saber que as explicações não são dogmas, nada há de impenetrável e absoluto, o ateísmo não é ‘obstaculizante’, opressivo nem oferece nem qualquer paraíso ou estrutura mítica e eterna no fim dos séculos. Estas são diferenças fundamentais. É ainda um culto ao saber que se vai conhecendo, ao trabalho de investigação, que se gera, à verdade dos factos e à sua explicação mais aceitável. O ateísmo não é uma construção mais tardia… É a comprovação de que até o JCN não tem para com o culto, a fé, a devoção nenhum respeito. Se o tivesse não pretendia aglutinar nos “crentes” os que não têm fé, desmerecendo a transparência do ateísmo. É preciso saber que os ateus são correligionários, não têm um ‘enfeudamento’ por premissas ditadas por algum poder espúrio e injusto… Não servem a qualquer senhor nem requerem para o ser um conjunto de mentiras e praxis degradantes, servis e obsoletas. Quem está em degradação são as religiões, as suas regras aviltantes e confusas, dum deus que impõe e irá castigar os infractores, que requer castidade, que gera as maiores taras e opressões. Mais à frente JCN acredita no Big Bang… Alguma luzinha brilha nesse cérebro…
    Claro que devemos respeitar o iluminismo, a construção de novas aspirações sociais, a queda das ditaduras e aos poucos o desmoronamento dogmático e castigador dos deuses do infinito…

  • gt

    JCN diz textualmente: “Recusar Deus é uma crença como as outras. No fundo trata-se de ter fé na ausência divina. Mas esta crença considera-se a si mesma lógica e natural. A Antropologia e Sociologia sérias mostram o oposto: a religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas. O ateísmo é uma construção tardia e artificial de elites, sobretudo desde o Iluminismo. Mantido em ínfima minoria, agora está em clara decadência. Vendo-lhe a lógica interna, percebe-se porquê.” Claro que o ateísmo é uma crença. Mas não no domínio teológico, não se compreende numa fé, e aí está a diferença. Sê-lo não é a negação implícita em a “fé na ausência no divino.” Não! É a certeza de que o deus omnipotente, etc. não pode existir nem pode ter gerado o seu antagónico, o satã. Que todo um conjunto de regras são artificiais, impingidas a alguns que não têm tempo para terem algum pensamento filosófico e força para se libertarem dos grandes castigos que deus trará… Acreditar no inferno e nos céus, em dogmas e preceitos religiosos, em mandamentos e na palavra divina, no baptismo… Isso sim é Fé, tem a sua mitologia (ou mitologias, tão complexa é a Bíblia e o Novo testamento), tem um passado que não sendo muito marcante é apreciável, e tem uma história raramente edificante. Claro que uma certa Sociologia e outra Antropologia podem ‘testemunhar’ que a religiosidade é normal. E assim é enquanto explicação. Deus criador, e moletas como ‘a vontade de deus’, vias de simplificação, histórias confusas da génese compreendendo uma moral e outros valores. Uma ligação do homem a deus, ao infinito… Alguma estruturação social útil não fora a sua ambição desmedida em espoliar os seus adeptos, os seus crentes. O ateu não tem nada de sagrado enquanto “devoto” na fé pretendida por JCN, não tem nenhuma iniciação, não necessita de ser marxista ou filósofo, requer só ser um livre-pensador ou um pensador livre e saber que as explicações não são dogmas, nada há de impenetrável e absoluto, o ateísmo não é ‘obstaculizante’, opressivo nem oferece nem qualquer paraíso ou estrutura mítica e eterna no fim dos séculos. Estas são diferenças fundamentais. É ainda um culto ao saber que se vai conhecendo, ao trabalho de investigação, que se gera, à verdade dos factos e à sua explicação mais aceitável. O ateísmo não é uma construção mais tardia… É a comprovação de que até o JCN não tem para com o culto, a fé, a devoção nenhum respeito. Se o tivesse não pretendia aglutinar nos “crentes” os que não têm fé, desmerecendo a transparência do ateísmo. É preciso saber que os ateus são correligionários, não têm um ‘enfeudamento’ por premissas ditadas por algum poder espúrio e injusto… Não servem a qualquer senhor nem requerem para o ser um conjunto de mentiras e praxis degradantes, servis e obsoletas. Quem está em degradação são as religiões, as suas regras aviltantes e confusas, dum deus que impõe e irá castigar os infractores, que requer castidade, que gera as maiores taras e opressões. Mais à frente JCN acredita no Big Bang… Alguma luzinha brilha nesse cérebro…
    Claro que devemos respeitar o iluminismo, a construção de novas aspirações sociais, a queda das ditaduras e aos poucos o desmoronamento dogmático e castigador dos deuses do infinito…

  • Alberto

    Enquanto isso, a China conta suas baixas. Qual será o próximo?

  • Alberto

    Enquanto isso, a China conta suas baixas. Qual será o próximo?

  • elmano

    Triste e Abominável JC das Neves.
    Quão preocupado está a besta com o eventual declíneo do ateísmo.
    É claro que o actual e evidente declíneo das religiões estruturadas e a proliferação das seitas é por ele lido como um sinal de crescimento da religião.
    O pior cego é o que não quer ver. E JC das Neves não quer ver. Preocupa-o mais que um conjunto de cidadãos não pense como ele, do que o preocupa a longa e permanente guerra entre religiões.
    Cristãos contra protestantes, judeus contra muçulmanos, muçulmanos shitas contra muçulmanos sunitas, taoístas contra budistas, hindus contra muçulmanos, guerras entre crentes de todos os tipos são uma benção para JC das Neves.
    Querer incluir os ateus e laicos no seu mundo metafísico é uma aberração que só pode sair desta cabecinha.

  • elmano

    Triste e Abominável JC das Neves.
    Quão preocupado está a besta com o eventual declíneo do ateísmo.
    É claro que o actual e evidente declíneo das religiões estruturadas e a proliferação das seitas é por ele lido como um sinal de crescimento da religião.
    O pior cego é o que não quer ver. E JC das Neves não quer ver. Preocupa-o mais que um conjunto de cidadãos não pense como ele, do que o preocupa a longa e permanente guerra entre religiões.
    Cristãos contra protestantes, judeus contra muçulmanos, muçulmanos shitas contra muçulmanos sunitas, taoístas contra budistas, hindus contra muçulmanos, guerras entre crentes de todos os tipos são uma benção para JC das Neves.
    Querer incluir os ateus e laicos no seu mundo metafísico é uma aberração que só pode sair desta cabecinha.

  • Ateu comunista bolivariano

    JCN é apenas 1 cão raivoso ladrando desesperado

  • Ateu comunista bolivariano

    JCN é apenas 1 cão raivoso ladrando desesperado

  • Ateu comunista bolivariano
  • Ateu comunista bolivariano

You must be logged in to post a comment.