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O referendo ao aborto: Direito e Ética

Nos posts anteriores vimos essencialmente o que o Direito Penal não deve ser e as razões históricas porque continua arreigada a convicção de que os pecados/crimes devem ser punidos nos países que não foram permeados pela laicidade e a influência da religião, nomeadamente da Igreja Católica, continua a minar o pensamento colectivo.

Como já referi, num estado laico todo e qualquer ramo do Direito deve ser livre de concepções religiosas ou morais, ou seja, a lei não deve proibir algo apenas porque considerado «imoral», mesmo que pela maioria da população. É moralmente errado o adultério mas apenas nas teocracias mais abomináveis os adúlteros são punidos pelo seu pecado (para além dos documentos constantes do link anterior pode assinar esta petição para tentar evitar que sete mulheres iranianas sejam apedrejadas até à morte pelo «crime» de adultério)!

Assim, a argumentação da Igreja e seus apaniguados contra a despenalização do aborto assenta em princípios que violam os axiomas subjacentes ao Direito num estado democrático e laico! Apenas numa teocracia a lei transcreve os «valores da cultura de um povo», eufemismo que Policarpo utiliza para sustentar que os preconceitos religiosos devem contaminar o Direito Penal nacional.

Já desde o século XIX que se aceita o preconizado por John Stuart Mill segundo o qual a lei não deve criminalizar práticas que não prejudiquem terceiros. Assim, devem ser revogadas leis que criem «crimes sem vítimas», na sua maioria leis assentes em morais religiosas que criminalizam ou proibem pecados como a homossexualidade, o aborto, o divórcio, o adultério, a fornicação, etc..

Manter leis que criam «crimes sem vítimas» é uma forma inadmíssivel em democracia de obrigar todos a conformarem-se aos padrões morais de alguns, é impor via direito as convicções religiosas desses alguns, mesmo que em maioria. Assim, mesmo quem considera o aborto «imoral» mas considera que não é equivalente a um homicídio deve votar sim no referendo de despenalização. Caso contrário estará a impor a sua moral pessoal a toda a população mantendo um crime sem vítimas. Ou seja, está a violar todos os princípios em que assenta a nossa civilização!

Porque de facto o que está em jogo no referendo ao aborto não é nem a moralidade do mesmo ou, como pretendem os mais falaciosos que já começaram a sua tarefa «divina» de envenenamento da opinião pública, saber se os nossos impostos devem pagar os abortos alheios – o que, considerando os tempos de espera no nosso sistema de saúde pública e o prazo de dez semanas a referendar, não parece muito plausível.

O que está em jogo é decidir se têm direito incondicional à vida um zigoto e um embrião. Ou seja, se devemos conferir o estatuto jurídico de pessoa a um zigoto, embrião e, como a argumentação é exactamente a mesma, a «humanidade» igualada a um genoma, a uma célula estaminal totipotente.

Essa decisão dever-se-ia assim simplesmente basear no estatuto ético do embrião, isto é, se os cidadãos consideram que um embrião deve ter o mesmo estatuto de uma pessoa e consequentemente abortar é equivalente a assassinar alguém.

Em Portugal os debates sob o tema com que fomos mimoseados no passado são lições deploráveis sobre o que não deve ser um debate, com argumentos falaciosos de ambos os lados que nunca abordam o tema em que deveria assentar a discussão. É igualmente deplorável que sejam convidados para os debates não quem de direito, bioéticos e filósofos especializados em ética, mas, para além de políticos, exactamente quem nunca deveria ter assento – se de facto Portugal fosse um estado de direito, democrático e laico – num debate sobre o tema: representantes da Igreja Católica, tanto leigos como assalariados!
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(continua)
3 thoughts on “O referendo ao aborto: Direito e Ética”
  • bestfriend

    Bestfriend said…

    Há muitos assuntos em torno da interrupção da gravidez que fazem sentido. Contudo, veja-se que, como princípio, não posso querer ver-me livre daquilo que me não é oportuno ou que me incomoda! Haveria muita gente da qual quereria ver-me livre, contudo, apesar da «inconveniência», elas têm o direito de existir para lá da minha vontade. Sim à vida e não à morte é um princípio do qual não abdico de modo algum, seja sob que circunstâncias for.
    É certo que há fundamentalismos, como fica expresso no artigo de Palmira F. da Silva, que não aceitamos e a Igreja Católica tem de reconsiderar algumas questões, mas, no entanto, aquilo que penso é que a questão da vida sobre a morte, como princípio, não tem nada a ver com a Igreja Católica, Protestante, Budista, Hinduísta, Islâmica. Aquilo que tem a ver é que o ainda feto, estado pelo qual todos passámos, incontornavelmente, antes de sermos pessoas, tem o direito à sua oportunidade como quaisquer um de nós teve um dia. Não há sociedades perfeitas e não é porque passam a matar-se muitos seres humanos em construção que o mundo será melhor e mais justo para todos. Não é justo que se impeça alguém de nascer, cujo papel a desempenhar poderia ser de grande valia para a Humanidade. ou talvez não, dirão alguns. Poderemos estar a livar-nos de um assassino, de alguém perfeitamente prescindível. Nunca o poderemos saber, se afinal, nem todos têm a mesma oportunidade de nascer. Não me parece justo de modo algum.
    Mas, mais interessante sobre a defesa, a qualquer preço, do aborto – até como «meio de contracepção» – é que muitas melhores e homens que o defendem intransigentemente, são muitos dos que depois estão nas manifestações contra os abates dos animais para extrair as peles preciosas. Claro que não concordo com as matanças dos animais somente com o intuito de agasalho. Contudo, aqueles que os defendem – e fazem bem porque eles não podem defender-se – são os mesmos para quem os potenciais seres humanos nada significam e dos quais as mulheres, por egoísmo ou desleixo, querem ver-se livres. Em que é que ficamos???? Defender os animais, claro que sim. É incontestável e sem discussão! Mas então os fetos que também não podem defender-se não podem ser defendidos??? As pessoas impedidas de nascer…. não tem importância alguma vermo-nos livres delas, «dá mais jeito», é mais «oportuno»…, mas os animais (que eu defendo, entenda-se) são defendidos. Há que, pelo menos, dar direitos iguais a uns e a outros – a fetos, que todos fomos um dia, e animais. Ambos não podem defender-se. Direitos iguais para os fetos, tal como o fazem para os animais. pelo menos isso! Dêm-lhes igualdade de oportunidades. Defendam uns e outros. Mas sabem?? É muito «moderno» ser a favor do aborto e também ser a favor dos animais, e muito boa gente não pensa, simplesmente. O que é preciso é seguir o que se usa, o que está a dar – a carneirada move-se e pronto lá vão uns tantos atrás dos outros. Que se tome consciência de tanta «modernidade», de tanto «Maria vai com as outras». Isto nada tem a ver com Catolicismo ou o que quer que seja de raíz religiosa. Isto tem a ver com direitos. O meu direito de não querer um filho, nem sequer se coloca quando há o direito de nascer de um filho. Porque raio é que há que entender que somos mais importantes do que um feto? Nós podemos fazer para não conceber, mas um feto, uma vez em progresso de crescimento, não tem a capacidade de se ver livre de si próprio – esse feto tem etapas para percorrer, tal como aconteceu connosco um dia que hoje nos podemos manifestar e ter opinião. Esse feto não dá opinião, apenas segue as leis da Natureza que são incontornáveis. Eu posso decidir que não quero fazer um filho, mas esse feto não pode decidir que não quer nascer. Somos nós que decidimos que o não queremos e, francamente, não me parece justo, porque essa base de um novo ser humano não tem como se defender e tem o direito à vida como nós o tivemos. Não condicionem o nascimento de pessoas pelo egoísmo do «incómodo» e do «inoportuno». Não pode ser!! Qualquer dia também se mandam matar os idosos, os deficientes, os doentes, porque são incómodos, custam dinheiro e dão trabalho! Incomodam as carreiras de sucesso que oa «vencedores da vida» querem fazer! Sou intansigente por príncipio do direito à vida, tal como o sou relativamente à pena de morte seja em que cirsuntâncias for. Sim à vida. Os mesmos direitos para todos que é o de viver – um feto é o que está na base de um ser humano e este não prescinde dessa fase da sua evolução. SIM À VIDA!

  • bestfriend

    Bestfriend said… Há muitos assuntos em torno da interrupção da gravidez que fazem sentido. Contudo, veja-se que, como princípio, não posso querer ver-me livre daquilo que me não é oportuno ou que me incomoda! Haveria muita gente da qual quereria ver-me livre, contudo, apesar da «inconveniência», elas têm o direito de existir para lá da minha vontade. Sim à vida e não à morte é um princípio do qual não abdico de modo algum, seja sob que circunstâncias for.É certo que há fundamentalismos, como fica expresso no artigo de Palmira F. da Silva, que não aceitamos e a Igreja Católica tem de reconsiderar algumas questões, mas, no entanto, aquilo que penso é que a questão da vida sobre a morte, como princípio, não tem nada a ver com a Igreja Católica, Protestante, Budista, Hinduísta, Islâmica. Aquilo que tem a ver é que o ainda feto, estado pelo qual todos passámos, incontornavelmente, antes de sermos pessoas, tem o direito à sua oportunidade como quaisquer um de nós teve um dia. Não há sociedades perfeitas e não é porque passam a matar-se muitos seres humanos em construção que o mundo será melhor e mais justo para todos. Não é justo que se impeça alguém de nascer, cujo papel a desempenhar poderia ser de grande valia para a Humanidade. ou talvez não, dirão alguns. Poderemos estar a livar-nos de um assassino, de alguém perfeitamente prescindível. Nunca o poderemos saber, se afinal, nem todos têm a mesma oportunidade de nascer. Não me parece justo de modo algum. Mas, mais interessante sobre a defesa, a qualquer preço, do aborto – até como «meio de contracepção» – é que muitas melhores e homens que o defendem intransigentemente, são muitos dos que depois estão nas manifestações contra os abates dos animais para extrair as peles preciosas. Claro que não concordo com as matanças dos animais somente com o intuito de agasalho. Contudo, aqueles que os defendem – e fazem bem porque eles não podem defender-se – são os mesmos para quem os potenciais seres humanos nada significam e dos quais as mulheres, por egoísmo ou desleixo, querem ver-se livres. Em que é que ficamos???? Defender os animais, claro que sim. É incontestável e sem discussão! Mas então os fetos que também não podem defender-se não podem ser defendidos??? As pessoas impedidas de nascer…. não tem importância alguma vermo-nos livres delas, «dá mais jeito», é mais «oportuno»…, mas os animais (que eu defendo, entenda-se) são defendidos. Há que, pelo menos, dar direitos iguais a uns e a outros – a fetos, que todos fomos um dia, e animais. Ambos não podem defender-se. Direitos iguais para os fetos, tal como o fazem para os animais. pelo menos isso! Dêm-lhes igualdade de oportunidades. Defendam uns e outros. Mas sabem?? É muito «moderno» ser a favor do aborto e também ser a favor dos animais, e muito boa gente não pensa, simplesmente. O que é preciso é seguir o que se usa, o que está a dar – a carneirada move-se e pronto lá vão uns tantos atrás dos outros. Que se tome consciência de tanta «modernidade», de tanto «Maria vai com as outras». Isto nada tem a ver com Catolicismo ou o que quer que seja de raíz religiosa. Isto tem a ver com direitos. O meu direito de não querer um filho, nem sequer se coloca quando há o direito de nascer de um filho. Porque raio é que há que entender que somos mais importantes do que um feto? Nós podemos fazer para não conceber, mas um feto, uma vez em progresso de crescimento, não tem a capacidade de se ver livre de si próprio – esse feto tem etapas para percorrer, tal como aconteceu connosco um dia que hoje nos podemos manifestar e ter opinião. Esse feto não dá opinião, apenas segue as leis da Natureza que são incontornáveis. Eu posso decidir que não quero fazer um filho, mas esse feto não pode decidir que não quer nascer. Somos nós que decidimos que o não queremos e, francamente, não me parece justo, porque essa base de um novo ser humano não tem como se defender e tem o direito à vida como nós o tivemos. Não condicionem o nascimento de pessoas pelo egoísmo do «incómodo» e do «inoportuno». Não pode ser!! Qualquer dia também se mandam matar os idosos, os deficientes, os doentes, porque são incómodos, custam dinheiro e dão trabalho! Incomodam as carreiras de sucesso que oa «vencedores da vida» querem fazer! Sou intansigente por príncipio do direito à vida, tal como o sou relativamente à pena de morte seja em que cirsuntâncias for. Sim à vida. Os mesmos direitos para todos que é o de viver – um feto é o que está na base de um ser humano e este não prescinde dessa fase da sua evolução. SIM À VIDA!

  • bestfriend

    Bestfriend said… Há muitos assuntos em torno da interrupção da gravidez que fazem sentido. Contudo, veja-se que, como princípio, não posso querer ver-me livre daquilo que me não é oportuno ou que me incomoda! Haveria muita gente da qual quereria ver-me livre, contudo, apesar da «inconveniência», elas têm o direito de existir para lá da minha vontade. Sim à vida e não à morte é um princípio do qual não abdico de modo algum, seja sob que circunstâncias for.É certo que há fundamentalismos, como fica expresso no artigo de Palmira F. da Silva, que não aceitamos e a Igreja Católica tem de reconsiderar algumas questões, mas, no entanto, aquilo que penso é que a questão da vida sobre a morte, como princípio, não tem nada a ver com a Igreja Católica, Protestante, Budista, Hinduísta, Islâmica. Aquilo que tem a ver é que o ainda feto, estado pelo qual todos passámos, incontornavelmente, antes de sermos pessoas, tem o direito à sua oportunidade como quaisquer um de nós teve um dia. Não há sociedades perfeitas e não é porque passam a matar-se muitos seres humanos em construção que o mundo será melhor e mais justo para todos. Não é justo que se impeça alguém de nascer, cujo papel a desempenhar poderia ser de grande valia para a Humanidade. ou talvez não, dirão alguns. Poderemos estar a livar-nos de um assassino, de alguém perfeitamente prescindível. Nunca o poderemos saber, se afinal, nem todos têm a mesma oportunidade de nascer. Não me parece justo de modo algum. Mas, mais interessante sobre a defesa, a qualquer preço, do aborto – até como «meio de contracepção» – é que muitas melhores e homens que o defendem intransigentemente, são muitos dos que depois estão nas manifestações contra os abates dos animais para extrair as peles preciosas. Claro que não concordo com as matanças dos animais somente com o intuito de agasalho. Contudo, aqueles que os defendem – e fazem bem porque eles não podem defender-se – são os mesmos para quem os potenciais seres humanos nada significam e dos quais as mulheres, por egoísmo ou desleixo, querem ver-se livres. Em que é que ficamos???? Defender os animais, claro que sim. É incontestável e sem discussão! Mas então os fetos que também não podem defender-se não podem ser defendidos??? As pessoas impedidas de nascer…. não tem importância alguma vermo-nos livres delas, «dá mais jeito», é mais «oportuno»…, mas os animais (que eu defendo, entenda-se) são defendidos. Há que, pelo menos, dar direitos iguais a uns e a outros – a fetos, que todos fomos um dia, e animais. Ambos não podem defender-se. Direitos iguais para os fetos, tal como o fazem para os animais. pelo menos isso! Dêm-lhes igualdade de oportunidades. Defendam uns e outros. Mas sabem?? É muito «moderno» ser a favor do aborto e também ser a favor dos animais, e muito boa gente não pensa, simplesmente. O que é preciso é seguir o que se usa, o que está a dar – a carneirada move-se e pronto lá vão uns tantos atrás dos outros. Que se tome consciência de tanta «modernidade», de tanto «Maria vai com as outras». Isto nada tem a ver com Catolicismo ou o que quer que seja de raíz religiosa. Isto tem a ver com direitos. O meu direito de não querer um filho, nem sequer se coloca quando há o direito de nascer de um filho. Porque raio é que há que entender que somos mais importantes do que um feto? Nós podemos fazer para não conceber, mas um feto, uma vez em progresso de crescimento, não tem a capacidade de se ver livre de si próprio – esse feto tem etapas para percorrer, tal como aconteceu connosco um dia que hoje nos podemos manifestar e ter opinião. Esse feto não dá opinião, apenas segue as leis da Natureza que são incontornáveis. Eu posso decidir que não quero fazer um filho, mas esse feto não pode decidir que não quer nascer. Somos nós que decidimos que o não queremos e, francamente, não me parece justo, porque essa base de um novo ser humano não tem como se defender e tem o direito à vida como nós o tivemos. Não condicionem o nascimento de pessoas pelo egoísmo do «incómodo» e do «inoportuno». Não pode ser!! Qualquer dia também se mandam matar os idosos, os deficientes, os doentes, porque são incómodos, custam dinheiro e dão trabalho! Incomodam as carreiras de sucesso que oa «vencedores da vida» querem fazer! Sou intansigente por príncipio do direito à vida, tal como o sou relativamente à pena de morte seja em que cirsuntâncias for. Sim à vida. Os mesmos direitos para todos que é o de viver – um feto é o que está na base de um ser humano e este não prescinde dessa fase da sua evolução. SIM À VIDA!

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