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O exorcismo de Emily Rose

Já estreou em quase todo o mundo o filme que dá o titulo ao post, baseado num caso real passado há 29 anos na Baviera. Em 1976, Anneliese Michel, uma estudante de 23 anos que acreditava estar possuída por demónios, morreu após se ter submetido a 67 ritos de exorcismo durante nove meses. A jovem pesava pouco mais de 30 kg à altura da morte. Os pais e os dois padres que realizaram o exorcismo foram considerados culpados de homícidio negligente e condenados a seis meses de prisão efectiva e 3 anos de pena suspensa.

Para perceber as razões subjacentes à convicção da possessão demoníaca pela jovem é necessário saber que Annelise Michel cresceu num ambiente profundamente católico, três das suas tias eram freiras e o seu pai tinha considerado a ingressão num seminário. Mas a mãe de Annelise tinha cometido um «deslize» na juventude e dado à luz uma filha ilegítma, Martha, em 1948. Por essa razão casou-se com o devoto Josef Michel usando um véu negro e, praticamente desde que nasceu em 1952, Anneliese carregou a culpa da ilegitimidade da irmã, ilegitimidade que foi encorajada a expiar com constantes devoção e orações. A irmã morreu com oito anos e certamente que o ambiente familiar de fanatismo religioso propiciou um sentimento de culpa crescente na jovem Anneliese e uma necessidade de expiação dos pecados não só da mãe mas igualmente da «imoralidade» que via à sua volta, nos loucos anos sessenta.

Em 1968, com 17 anos, Anneliese teve os primeiros episódios de convulsões e foi diagnosticada com epilepsia. Mas o seu sentimento de culpa pelos «pecados» alheios aliado ao ambiente familiar (doentiamente) católico propiciaram que Anneliese experienciasse alucinações demoníacas quando rezava. Em 1973, data em que foi estreado o filme «O exorcista», sofria de depressão severa e considerava suicídio, uma vez que «vozes» na sua cabeça lhe anunciaram que estava amaldiçoada.

Certamente que a estreia do filme a sugestionou e pouco depois começou a apresentar comportamentos bizarros, muito semelhantes aos de Linda Blair, a Regan no «Exorcista». Em 1975 Anneliese estava tão convencida da sua possessão por demónios sortidos, possessão confirmada por dois prelados católicos, Arnold Renz e Ernst Alt, que identificaram, entre outros, Lúcifer, Judas, Nero, Caim e… Adolf Hitler, que recusou qualquer prescrição médica ou tratamento da Clínica Psiquiátrica de Wurzburg. Os seus sintomas, para além da já diagnosticada epilepsia, sugerem que sofria de esquizofrenia, ambas doenças perfeitamente tratáveis à época.

Mas a sua obsessão religiosa, certamente exponenciada pelo facto de que a Igreja Católica encoraja estas superstições anacrónicas, considerando não só reais a existência de mafarricos e afins como a possessão por demos, levaram-na a preferir a tratamento médico do século XX os exorcismos realizados de acordo com o manual de exorcismo então em vigor, o Rituale Romanum de 1614.

No filme, certamente ao agrado da Igreja Católica, o exorcista é representado como um herói e não como o criminoso que na realidade é. De facto, é absolutamente reprovável e incompreensível que a Igreja de Roma, no século XXI, esteja a recuperar e a exponenciar uma superstição absurda como é a possessão demoníaca.

Por todo o mundo, mesmo o primeiro mundo, assistimos a uma regressão medieval preocupante a crendices inesperadas numa altura em que os avanços científicos desmistificaram e esclareceram as razões biológicas e psíquicas dos comportamentos identificados como possessões demoníacas na época em que a Inquisição mandava para a fogueira bruxas e hereges.

Não faz sentido que a Associação Italiana de Psiquiatras e Psicólogos informe que todos os anos meio milhão de italianos recorram aos (maus) ofícios de exorcistas. Assim como não faz sentido a escalada de possessões demoníacas no mui católico México… Muito menos faz sentido a escalada de mortes devidas a exorcismos. A Igreja de Roma está implicitamente a dar o seu acordo a estes atentados civilizacionais quando encoraja estas palermices supersticiosas e potencialmente perigosas, com declarações bem recentes pelo papa que reconheceu o «importante trabalho ao serviço da Igreja» dos exorcistas.

13 thoughts on “O exorcismo de Emily Rose”
  • karina anita

    Concordo plenamente com as declarações, pois o filme se intitula de “baseado em fatos reais”, quando na verdade omite fatos. Porém, não deixo de admirar o filme como um bom terror.

  • karina anita

    Concordo plenamente com as declarações, pois o filme se intitula de “baseado em fatos reais”, quando na verdade omite fatos. Porém, não deixo de admirar o filme como um bom terror.

  • Ana666anA

    Interessante vocês se auto-denominarem ateístas e procurarem, ao longo de um artigo inteiro, desmitificar a existência do… Demônio! A não ser que, vocês se preocupem muito mais com a sua negação que com a do Deus cristão, ou, ainda, que vocês, de fato, estejam se auto-afirmando ao buscarem negação de um deus para vocês… Uma outra hipótese, ainda mais grandiosa ao meu ver, seria a pergunta: não seria auto-afirmação um grupo de pessoas que se preocupa em negar um ser que, na verdade, não existe?

  • Ana666anA

    Interessante vocês se auto-denominarem ateístas e procurarem, ao longo de um artigo inteiro, desmitificar a existência do… Demônio! A não ser que, vocês se preocupem muito mais com a sua negação que com a do Deus cristão, ou, ainda, que vocês, de fato, estejam se auto-afirmando ao buscarem negação de um deus para vocês… Uma outra hipótese, ainda mais grandiosa ao meu ver, seria a pergunta: não seria auto-afirmação um grupo de pessoas que se preocupa em negar um ser que, na verdade, não existe?

    • Eduardo Vianna

      Ana, não digas asneiras.
      Está muito claro o objetivo do artigo. Se não entendeu, lê novamente.

  • Claudia

    Concordo com o comentário da Ana e acho que, se for para fazer uma crítica imparcial ao filme, como ateístas de fato, vocês poderiam ter levantado, por exemplo, as sequelas e os sintomas de quadros como a esquizofrenia e a epilepsia, que vocês admitem como sendo as causas dos distúrbios da garota.
    Tentar provar a inexistência do demônio (como disse a Ana, coisa absurda para um ateu!) ou criticar o exorcismo enquanto prática da Igreja, só por ser “medieval”, são argumentos fracos. Vejam, sou absurdamente CONTRA a Igreja Católica por inúmeros e diferentes motivos e hoje me considero mais atéia que espírita, mas como pesquisadora, prezo a imparcialidade e ela aqui não esteve presente. Resolvi comentar, pois adoro este blog exatamente pela isenção, recomendando-o aos amigos enfaticamente. Abs.

    • Eduardo Vianna

      Claudia, não digas asneiras tu também.
      Queres imparcialidade?
      Queres que sejamos “imparciais” diante de assuntos desse tipo?
      Ora, bolas!

    • Cesar Moraes

      O post não fala somente do filme, fala do que a igreja faz nesses casos, já li inumeros artigos de médicos do vaticano que eles próprios abominam o exorcismo, e outra, o Vaticano hoje em dia utiliza o “exorcismo” em ultimo caso pois todas as cagadas que fizeram no passado de “confundir” problemas psiquiatricos ou espirituais, ou seja, não vai demorar muito para o Vaticano arruma um jeito de expor pra sociedade que o exorcismo foi um erro durante todo esse tempo, ai você me responde: E as familas que perderam entes queridos por conta dessa fantasia estupida ?

  • exercismo

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  • exercismo

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  • junior alves

    eia gaita!!!!!!!!

  • junior alves

    eia gaita!!!!!!!!

  • João

    Faltou imparcialidade ao artigo.

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