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Crónicas fantásticas

A fantasia ou ficção fantástica é um género de literatura normalmente menorizado e relegado para literatura infantil. Basta lembrar que o livro que antecede a trilogia de «O Senhor dos Anéis» de J. R. Tolkien, «O Hobbit», está classificado nesta categoria!

O meu primeiro contacto com a fantasia, para além dos contos de fadas, aconteceu por volta dos sete anos com três livros da editora Civilização que descobri numa feira do livro: o referido livro de Tolkien, vendido como «O Duende», e dois livros de George MacDonald, «A Princesa e os Duendes» e «Curdie e a Princesa». O tema recorrente da fantasia é a luta do bem contra o mal em que, após muitas peripécias que normalmente envolvem a viagem dos paladinos do bem ao antro do mal, o bem vence. Na maioria dos livros de fantasia as alegorias do bem e do mal são completamente maniqueístas e, estranhamente, transcrevem muitos dos mitos cultivados pela comunidade essénia cujos escritos foram recentemente descobertos: os manuscritos do Mar Morto. A luta do bem contra o mal é uma luta da luz contra as trevas e a beleza física está associada ao bem. Basta recordarmos a saga das Guerra das Estrelas para confirmarmos que George Lucas seguiu à risca a «receita» mágica da fantasia, incluindo, no último episódio, o pormenor não despiciendo da tranformação física sofrida por Palpatine e, especialmente, por Anakin Skywalker.

De facto, apesar de a fantasia não ser considerada literatura «nobre», no cinema revela-se um grande sucesso de bilheteira, com pelo menos sete dos dez filmes mais bem sucedidos na história do cinema pertencendo ao género (alguns, como a Guerra das Estrelas, mais propriamente fantasia SciFi).

Tendo a fantasia o seu maior sucesso nas camadas mais jovens da população não é de estranhar que os fundamentalistas se indignem com o que consideram fantasia perniciosa, nomeadamente a série Harry Potter. Ironicamente, ou talvez não, a guerra dos fundamentalistas cristãos contra a série foi despoletada por um artigo satírico, que ridicularizava os acéfalos fanáticos, na indispensável «Cebola».

Clive Staples Lewis (1898-1963) ou C. S. Lewis é conhecido pela sua série «As Crónicas de Nárnia», publicadas em sete volumes entre 1950 e 1956. Lewis, um cristão fervoroso, escreveu a série após um debate sobre um dos seus livros estritamente religiosos, Milagres, em que foi «trucidado» por Elizabeth Anscombe. As Crónicas de Nárnia são uma forma diferente do autor transmitir a sua visão cristã do mundo.

O primeiro livro da série, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, foi passado ao grande écran pela Disney estando a estreia prevista para Dezembro próximo. Neste episódio a acção desenvolve-se entre o Velho Testamento (Génesis) e o Novo Testamento, com o leão Aslan, o verdadeiro soberano de Nárnia que a malvada feiticeira tenta impedir de assumir o legítimo trono, no papel principal de salvador (e criador) de Nárnia. Considerado uma alegoria de Cristo, ele tem poderes de cura e prega o amor ao próximo. As crianças são os seus apóstolos, com Edmund no papel do traidor Judas. Tentado pela feiticeira através da gula Edmund torna-se numa parte fundamental da execução de Aslan, que, claro, o perdoa. E após uma morte cerimonial, com direito a via crucis, o leão sagrado ressuscita fechando e confirmando todo o círculo alegórico.

Com este filme acaba para a Disney um boicote de nove anos por uma associação de fundamentalistas cristãos, a American Family Association. Esta associação acusava a Disney de promover a homossexualidade e exigia que a Disney criasse um conselho consultivo de cristãos evangélicos. Para além, claro, de exigir que a Disney proibisse a reunião de homossexuais, GayDay, que se realiza anualmente nas suas instalações em Orlando.

Nenhuma das reinvidicações dos fundamentalistas cristãos foi atendida pela Disney mas os primeiros declaram-se satisfeitos por Michael Eisner, o director executivo de 62 anos da Disney, ter anunciado que se ia retirar em Setembro de 2006. A anunciada cisão da Disney com a Miramax, que esteve envolvida em filmes tão «ofensivos» como Pulp Fiction e Fahrenheit 9/11 também ajudou ao levantamento do boicote, mas a razão principal foi a adaptação ao grande ecrán de fantasia boa, recomendada por todos os cristãos!

Pessoalmente preferiria que a Disney tivesse continuado a transcrever em filme as «Crónicas de Prydain» de Lloyd Alexander de que fizeram um único episódio: «Taran e o Caldeirão Mágico».

6 thoughts on “Crónicas fantásticas”
  • Rodrigo

    Bobagem. Hoje na blogosfera é muito fácil ser temerário, a gente precisa ressuscitar as brigas de pátio de escola.
    O livro “Milagres” não foi trucidado por Elizabeth, porque discutiram apenas UM capítulo. Ela demoliu o argumento de que a origem da mente necessariamente levava a uma conexão com o criador. Então, ela demoliu o argumento de que poderia ser uma “prova” de Deus. O livro é muito mais que isso, e somente o capítulo foi revisado. De fato, ele reviu sua carreira depois disso

  • Rodrigo

    Para lhe ajudar a ser mais centrado, cuidadoso e maduro, lhe deixo uma testemunha ocular suspeita, Anthony Flew, a respeito (do livro Deus Existe):

    Esse princípio socrático inspirava o Socratic Club, um
    grupo que era, realmente, o centro do que ainda havia de
    vida intelectual em Oxford no tempo da guerra. O clube
    era um fórum onde aconteciam acalorados debates entre
    ateístas e cristãos, e eu participava regularmente das reuniões.
    De 1942 a 1954, seu presidente foi o famoso escritor
    cristão, C. S. Lewis. Os membros do clube reuniam-se
    toda segunda-feira à noite durante os meses de aulas no
    Junior Commom Room do St. Hilda College. Em seu prefácio
    à primeira edição do Socratic Digest, Lewis citou a
    exortação de Sócrates para “seguirmos o argumento aonde
    ele nos levar”. Observou que aquela “arena especialmente
    devotada ao conflito entre cristãos e descrentes era
    uma novidade”.
    Muitos dos maiores ateístas em Oxford entraram em
    conflito com Lewis e seus companheiros cristãos. O mais
    famoso encontro foi um debate em fevereiro de 1948, entre
    Lewis e Elizabeth Anscombe, que levou Lewis a revisar
    o terceiro capítulo de seu livro Milagres. Eu ainda lembro
    que, no fim do debate, saí do clube com alguns amigos
    e fomos andando logo atrás de Elizabeth Anscombe e
    seu grupo. Ela e seus amigos estavam exultantes. Logo
    à frente deles, C. S. Lewis andava rapidamente, como
    se tivesse pressa de refugiar-se em seus aposentos no
    Magdalen College, logo além da ponte que estávamos
    todos atravessando.
    Embora muitos tenham achado que Lewis ficara permanentemente
    desencorajado pelo resultado desse debate,
    a própria Elizabeth pensava de modo diferente. “A
    reunião do Socratic Club, na qual li meu artigo”, ela escreveu
    mais tarde, “foi descrita, por vários dos amigos
    dele, como uma experiência horrível e chocante que o
    perturbou imensamente. Mas nem o dr. Havard — que
    convidou Lewis e a mim para um jantar, algumas semanas
    depois —, nem o professor Jack Bennett lembravamse
    de ter notado tal perturbação. Estou inclinada a interpretar
    os curiosos comentários feitos por alguns dos
    amigos de Lewis como um exemplo interessante do fenômeno
    chamado projeção”.

  • Rodrigo

    Bobagem. Hoje na blogosfera é muito fácil ser temerário, a gente precisa ressuscitar as brigas de pátio de escola.
    O livro “Milagres” não foi trucidado por Elizabeth, porque discutiram apenas UM capítulo. Ela demoliu o argumento de que a origem da mente necessariamente levava a uma conexão com o criador. Então, ela demoliu o argumento de que poderia ser uma “prova” de Deus. O livro é muito mais que isso, e somente o capítulo foi revisado. De fato, ele reviu sua carreira depois disso

  • Rodrigo

    Para lhe ajudar a ser mais centrado, cuidadoso e maduro, lhe deixo uma testemunha ocular suspeita, Anthony Flew, a respeito (do livro Deus Existe):

    Esse princípio socrático inspirava o Socratic Club, um
    grupo que era, realmente, o centro do que ainda havia de
    vida intelectual em Oxford no tempo da guerra. O clube
    era um fórum onde aconteciam acalorados debates entre
    ateístas e cristãos, e eu participava regularmente das reuniões.
    De 1942 a 1954, seu presidente foi o famoso escritor
    cristão, C. S. Lewis. Os membros do clube reuniam-se
    toda segunda-feira à noite durante os meses de aulas no
    Junior Commom Room do St. Hilda College. Em seu prefácio
    à primeira edição do Socratic Digest, Lewis citou a
    exortação de Sócrates para “seguirmos o argumento aonde
    ele nos levar”. Observou que aquela “arena especialmente
    devotada ao conflito entre cristãos e descrentes era
    uma novidade”.
    Muitos dos maiores ateístas em Oxford entraram em
    conflito com Lewis e seus companheiros cristãos. O mais
    famoso encontro foi um debate em fevereiro de 1948, entre
    Lewis e Elizabeth Anscombe, que levou Lewis a revisar
    o terceiro capítulo de seu livro Milagres. Eu ainda lembro
    que, no fim do debate, saí do clube com alguns amigos
    e fomos andando logo atrás de Elizabeth Anscombe e
    seu grupo. Ela e seus amigos estavam exultantes. Logo
    à frente deles, C. S. Lewis andava rapidamente, como
    se tivesse pressa de refugiar-se em seus aposentos no
    Magdalen College, logo além da ponte que estávamos
    todos atravessando.
    Embora muitos tenham achado que Lewis ficara permanentemente
    desencorajado pelo resultado desse debate,
    a própria Elizabeth pensava de modo diferente. “A
    reunião do Socratic Club, na qual li meu artigo”, ela escreveu
    mais tarde, “foi descrita, por vários dos amigos
    dele, como uma experiência horrível e chocante que o
    perturbou imensamente. Mas nem o dr. Havard — que
    convidou Lewis e a mim para um jantar, algumas semanas
    depois —, nem o professor Jack Bennett lembravamse
    de ter notado tal perturbação. Estou inclinada a interpretar
    os curiosos comentários feitos por alguns dos
    amigos de Lewis como um exemplo interessante do fenômeno
    chamado projeção”.

  • Rodrigo

    Bobagem. Hoje na blogosfera é muito fácil ser temerário, a gente precisa ressuscitar as brigas de pátio de escola.
    O livro “Milagres” não foi trucidado por Elizabeth, porque discutiram apenas UM capítulo. Ela demoliu o argumento de que a origem da mente necessariamente levava a uma conexão com o criador. Então, ela demoliu o argumento de que poderia ser uma “prova” de Deus. O livro é muito mais que isso, e somente o capítulo foi revisado. De fato, ele reviu sua carreira depois disso

  • Rodrigo

    Para lhe ajudar a ser mais centrado, cuidadoso e maduro, lhe deixo uma testemunha ocular suspeita, Anthony Flew, a respeito (do livro Deus Existe):

    Esse princípio socrático inspirava o Socratic Club, um
    grupo que era, realmente, o centro do que ainda havia de
    vida intelectual em Oxford no tempo da guerra. O clube
    era um fórum onde aconteciam acalorados debates entre
    ateístas e cristãos, e eu participava regularmente das reuniões.
    De 1942 a 1954, seu presidente foi o famoso escritor
    cristão, C. S. Lewis. Os membros do clube reuniam-se
    toda segunda-feira à noite durante os meses de aulas no
    Junior Commom Room do St. Hilda College. Em seu prefácio
    à primeira edição do Socratic Digest, Lewis citou a
    exortação de Sócrates para “seguirmos o argumento aonde
    ele nos levar”. Observou que aquela “arena especialmente
    devotada ao conflito entre cristãos e descrentes era
    uma novidade”.
    Muitos dos maiores ateístas em Oxford entraram em
    conflito com Lewis e seus companheiros cristãos. O mais
    famoso encontro foi um debate em fevereiro de 1948, entre
    Lewis e Elizabeth Anscombe, que levou Lewis a revisar
    o terceiro capítulo de seu livro Milagres. Eu ainda lembro
    que, no fim do debate, saí do clube com alguns amigos
    e fomos andando logo atrás de Elizabeth Anscombe e
    seu grupo. Ela e seus amigos estavam exultantes. Logo
    à frente deles, C. S. Lewis andava rapidamente, como
    se tivesse pressa de refugiar-se em seus aposentos no
    Magdalen College, logo além da ponte que estávamos
    todos atravessando.
    Embora muitos tenham achado que Lewis ficara permanentemente
    desencorajado pelo resultado desse debate,
    a própria Elizabeth pensava de modo diferente. “A
    reunião do Socratic Club, na qual li meu artigo”, ela escreveu
    mais tarde, “foi descrita, por vários dos amigos
    dele, como uma experiência horrível e chocante que o
    perturbou imensamente. Mas nem o dr. Havard — que
    convidou Lewis e a mim para um jantar, algumas semanas
    depois —, nem o professor Jack Bennett lembravamse
    de ter notado tal perturbação. Estou inclinada a interpretar
    os curiosos comentários feitos por alguns dos
    amigos de Lewis como um exemplo interessante do fenômeno
    chamado projeção”.

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